N. 19 – Belém/PA - Novembro/Dezembro - 2014

A Produção do Cuidado com a Saúde em Homens Jovens

Michael Machado e Túlio Quirino


Esse ensaio parte das considerações acerca da produção de cuidados com a saúde no cotidiano de homens jovens, resultantes das pesquisas desenvolvidas no âmbito do Núcleo de Pesquisas em Gênero e Masculinidades da UFPE.

Analisando o quadro geral da saúde dos homens e os índices de morbi-mortalidade masculina no Brasil, tem-se como referência o documento “Indicadores e Dados Básicos para a Saúde – IDB 2006 Brasil”, publicado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em parceria com o Ministério da Saúde, que expôs nessa edição o tema “Saúde do Homem”. Essa publicação apresenta os principais indicadores de morbimortalidade masculina agregados por região, faixa etária, renda, dentre outros critérios, além de revelar que os homens jovens são aqueles que apresentam maiores índices de internamento e morte por causas externas – homicídio, violência e uso abusivo de drogas (BRASIL, 2007). Estes últimos apresentam-se diretamente relacionados aos processos de socialização que, em geral, estimulam comportamentos de risco em detrimento do cuidado de si e dos outros (MEDRADO, 2003).

O Ministério da Saúde lançou, em 2009, a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do homem (PNAISH), e suas diretrizes trazem informações importantes acerca do tema homens no campo da saúde. Em seu texto, a política apresenta uma série de indicadores, como a violência, que atinge, de maneira geral, o dobro de homens em relação às mulheres e ao triplo se levarmos em consideração o grupo de 20 a 39 anos, apresentando assim desafios para a atenção integral a essa parcela da população brasileira.

Os estereótipos de gênero, enraizados há séculos na cultura patriarcal brasileira, potencializam práticas baseadas em crenças de que a doença é considerada um sinal de fragilidade e que os homens não a reconhecem como inerente à sua própria condição biológica. Nesse mesmo documento, o MS afirma que os homens têm dificuldade em reconhecer suas necessidades, cultivando o pensamento mágico que rejeita a possibilidade de adoecer. Além disso, reconhece que os serviços e as estratégias de comunicação em saúde privilegiam as ações de saúde para a criança, a mulher e o/a idoso/a (BRASIL, 2008).

Alguns estudos apontam o crescente interesse dos/as pesquisadores/as e das instituições de saúde acerca dos determinantes da saúde de homens jovens. Compreendemos como homens jovens, homens com idade entre 19 e 29 anos, a partir de critérios do IBGE utilizados no censo para agrupamento das faixas etárias.

Em nível de marcos, alguns elementos ganham destaque. A Organização Mundial de Saúde lançou em 2007 o Engaging men and boys in changing gender-based inequity in health: evidence from programme interventions, um documento que propõe uma abordagem diferenciada para os homens jovens na área da saúde. A justificativa apresentada nesse texto aborda que as principais causas de morte de homens, em geral, estão ligadas as formas de socialização da população masculina e com as relações estabelecidas ao longo da vida. Aponta também para uma perspectiva relacional de gênero ao assinalar que as práticas dos homens adolescentes e adultos podem ser responsáveis pela morbidade das mulheres adolescentes (OMS, 2007).

Outro documento importante, lançado pelo Ministério da Saúde em 2010, são as Diretrizes Nacionais para a Atenção Integral à Saúde de Adolescentes e Jovens na Promoção, Proteção e Recuperação da Saúde. Seu público alvo são adolescentes e jovens de 10 a 24 anos de ambos os sexos. Essa diretriz aponta uma série de sugestões que visam a participação conjunta deste público alvo e dos serviços na construção das ações em saúde, destacando-se o papel fundamental da atenção básica.

Convém ressaltar que esses documentos são resultados de debates diversos entre si no campo da saúde - não estão necessariamente ligados-, mas todos eles servem tanto como marcos para as políticas públicas, como para a produção acadêmica. Produção que, conforme Romeu Gomes e Elaine Nascimento (2008), revela que os jovens não adotam posturas preventivas, nem procuram ajuda quando têm a saúde comprometida.

A Produção do Cuidado na Saúde

É quase intrínseca a relação estabelecida entre a saúde e o cuidado. As inúmeras profissões/disciplinas que fazem parte desse conjunto desenvolveram uma série de tecnologias e aparatos que visam o cuidado com a saúde, em um projeto de manutenção da vida (FOUCAULT, 2000). José Ricardo Ayres (2004a) traz uma conceituação interessante ao explanar que, comumente, o cuidado em saúde diz respeito a uma série de procedimentos orientados tecnicamente em vista do sucesso de um tratamento.

Essa compreensão, amplamente difundida entre/na rede de saúde, está intimamente associada à concepção de saúde biotecnicista, em que o cuidado é diretamente relacionado à doença, pois este estaria ligado a uma intervenção e uma instrumentalidade das técnicas e corpos. Não desconsideramos a importância deste posicionamento, dessa configuração “dura” do cuidado, mas nos posicionamos de maneira crítica a essa forma tradicional do cuidado em saúde e dialogamos com autores que tecem reflexões e destacam outros caminhos nessa produção.

No campo da saúde pública brasileira os debates acerca do cuidado surgiram tardiamente e no ensejo da reforma sanitária. Esse movimento foi orientado por um duplo interesse: de um lado, a demanda por uma atenção integral à saúde e, de outro, a necessidade de humanização das práticas que devem responder a tal demanda (AYRES, 2004b).

Na década de 1990, Lilia Schraiber (1998) já apresentava, em sua tese de livre docência, que as práticas em saúde estão passando por uma crise de legitimação, mesmo com o avanço científico e tecnológico, fazendo com que outras práticas de cuidados em saúde sejam estabelecidas no cotidiano dos serviços de saúde.

Assim como Ayres (2004a), Mary Jane Spink (2010) propõe outras formas na relação de produção dos cuidados em saúde. Essa autora aponta para a centralidade dos processos de interanimação dialógica em que se possa ressignificar o cuidado não mais de maneira unidirecional, mas como um espaço que fomente tanto o cuidado do outro como o cuidado de si, em uma política de existência.

Refletindo a produção de cuidados com a saúde no cotidiano nas práticas cotidianas, tecemos algumas considerações, pois comumente, na literatura acerca dos cuidados em saúde, esses são sempre compreendidos como um empreendimento existente nos serviços de saúde, ou relacionados aos profissionais.

Tatiana Anéas e José Ricardo Ayres (2011) explanam que no cuidado em saúde, deve ser considerado o modo de ser da instrumentalidade, como a manipulação dos medicamentos, os materiais e procedimentos utilizados, os protocolos seguidos, entre outros. Mas as pessoas, em suas práticas cotidianas tecem cuidados com a saúde, cuidam de si e dos outros, e ficam as seguintes indagações: como as pessoas em seu cotidiano produzem cuidados com a saúde? E os homens jovens, quais são as práticas de saúde desenvolvidas?

Ainda sobre as reflexões produzidas quanto a este tema, uma consideração recorrente é que cuidados com saúde estão intimamente atrelados ao uso/consumo de serviços de saúde (FIGUEIREDO, 2005), apontando para uma cisão entre as práticas cotidianas de cuidados em saúde e os serviços oferecidos na atenção básica.

Existe saberes de/sobre saúde que circulam nas conversas cotidianas, nas relações familiares. Saberes e fazeres tradicionais como chás, efusões, remédios caseiros, dialogando ou não com os serviços oferecidos pela rede de saúde (MACHADO & RIBEIRO, 2012). Essas práticas cotidianas são dinâmicas e estão em constante transformação, levando assim a uma construção de realidade composta por diferentes narrativas, contextos e linhas de força, em sua complexidade e singularidade. Isso porque nos processos de saúde-doença-intervenção, a subjetividade e a objetividade do cuidado estão em mutação. Metamorfoseiam-se os programas de saúde que os provem, assim como os sujeitos que os operacionalizam (FERIGATO & CARVALHO, 2011, p.10).

Assim propomos ampliar a compreensão de cuidado em saúde como uma prática para além da relação estabelecida entre os usuários e os serviços de saúde, como uma práxis existente no cotidiano, como processo dinâmico, ou seja, ampliar a compreensão de cuidado em saúde como sinônimo de assistência à saúde.

Referências

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Michael Machado é Psicólogo (2010), Mestrando em Psicologia (UFPE), Pesquisador do GEMA/UFPE, Colaborador da Amnistia Internacional e Bolsista do CNPq. Tem experiência na área de Psicologia Social, atuando principalmente nos seguintes temas: gênero e masculinidades, saúde pública, segregação psicossocial.

Tulio Quirino é Psicólogo (2009), Mestre em Psicologia (UFPE) e Pesquisador do GEMA/UFPE. Tem experiência na área de Psicologia, com ênfase em Psicologia Social e da Saúde, atuando principalmente nos seguintes temas: saúde pública, saúde coletiva, saúde da família, atenção básica à saúde, saúde mental, gênero, masculinidades, cidadania e inclusão social