N. 19 – Belém/PA - Novembro/Dezembro - 2014

Discursos e práticas amorosas na contemporaneidade

Reprodução Ipsis Verbis da Entrevista de Telma Amaral Gonçalves, concedida ao Jornal Beira do Rio (UFPA), Ano XXVI, n. 105, junho e julho, 2012.

Telma Amaral

por Rosyane Rodrigues
foto Karol Khaled

Cada vez mais, os temas do cotidiano estão ganhando espaço na Academia. A pesquisa realizada pela professora Telma Amaral Gonçalves, defendida no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, é um exemplo disso. Transformar o amor – tema corriqueiro e banal – em tese de doutorado exige coragem.

Em entrevista ao Jornal Beira do Rio, Telma conversou sobre a pesquisa que investigou parceiros heterossexuais e homossexuais das camadas médias urbanas de Belém. "Trabalhando os dois universos em conjunção, percebi que não há diferença. É evidente que existem as especificidades, mas, na vivência cotidiana do amor, o fato de serem dois homens, duas mulheres, um homem e uma mulher não é o elemento mais importante. A rotina, a divisão de tarefas e as queixas são idênticas", afirma a professora.

Beira do Rio – O antropólogo Anthony Seeger diz que a escolha dos temas é uma escolha pessoal. No seu caso, o amor sempre esteve presente na sua trajetória acadêmica, não?

Telma Amaral – No mestrado, eu pesquisei o casamento. Na época, eu estava às vésperas de casar, então, esse era um incômodo pessoal. E pesquisando o casamento, o amor se colocou, pois, para falar de casamento, as pessoas falam de amor. É quase um critério básico: para casar, tem que amar. Na época, escrevi um capítulo sobre isso. No doutorando, para vincular os temas e dar uma continuidade ao trabalho anterior, lembrei-me do amor. Sem contar que esse tema tem a ver com a nossa vida. Afinal, o que é o amor? Ele se constrói ou não? Como é no dia a dia? Também é um tema pouco discutido academicamente. Mas por que ninguém discute o amor? Porque amor é coisa do cotidiano, é o clichê, todo mundo ama e fala de amor. Por ser tão banalizado, ele é pensado como não acadêmico. Existem alguns trabalhos nos campos da Antropologia e da Sociologia, mas não são muitos. São temas que estão "ao redor" do amor, como conjugalidade, família, vínculos, sexualidade. Decidi fazer o inverso. Na minha pesquisa, o amor é o tema central.

Beira do Rio – Antes de partir para o campo, fizeste uma revisão das referências sobre o amor. Quais foram as descobertas nesse momento da pesquisa?

Telma Amaral – Eu trabalhei referências da Antropologia, da Sociologia. Algumas no campo da História e da Psicologia. Na Antropologia, mostrei que os clássicos já apontavam para o estudo da relação afetiva, desde Malinowisk, com A vida sexual dos selvagens e Margaret Mead, com Sexo e Temperamento. Esses dois antropólogos já tinham a preocupação com esses temas considerados "menores" diante dos temas clássicos: religião, organização social, parentesco e magia. Mais recentemente, você tem uma leva de estudos, entre os quais, eu destaco os da Maria Luiza Heilborn e os da Marlise Matos. Um dado interessante é que esses pesquisadores não incorporam só o universo heterossexual. Quando se pensava em amor, era sempre a relação homem- mulher, e esses novos trabalhos discutem o amor entre homem e mulher, homem e homem, mulher e mulher. Essa foi uma percepção que eu também tive. Não dá mais para falar da vida social sem enxergar essas variações.

Beira do Rio – A contemporaneidade permite outras formas de amar?

Telma Amaral – Sim, permite. Essa discussão está em pauta, diferente de algumas décadas atrás. Não dá para ignorar esse universo tão amplo como o termo "homoafetivo" contempla. Hoje, é possível ver as pessoas expressando o afeto, que, no universo heterossexual, sempre foi uma marca registrada. Amar implica pegar, beijar, abraçar, falar sobre o amor. No universo homossexual, devido ao forte preconceito, há um tabu que proíbe a manifestação pública desse afeto. Todos os entrevistados colocaram claramente esta dificuldade. E eles incorporam esse discurso do "não pode" dizendo que é preciso "se dar ao respeito" e respeitar as pessoas. Assim, eles encontram estratégias para fugir do preconceito, mas de uma forma terrível, pois inibem aquilo que o amor tem de mais forte: a manifestação do sentimento amoroso. Por outro lado, os mais jovens têm se mostrado muito mais corajosos e ousados.

Beira do Rio – Letras de músicas foram usadas para nomear os capítulos. Músicas, cinema e literatura servem para nos "alfabetizar" nesse aprendizado sobre o que é o amor?

Telma Amaral – Não foi essa a minha intenção. Eu quis romper um pouco o rigor acadêmico e trazer a linguagem da arte, que é menos formal. A percepção que as pessoas têm é que uma tese de doutorado é uma leitura inacessível. Ao incorporar a linguagem do cinema, da música e da poesia, eu quis tornar a leitura da tese fácil e agradável. Algumas músicas foram indicadas pelos entrevistados, pois marcaram a relação; outras foram selecionadas por mim. Os poemas também foram citados pelos entrevistados. A literatura é um campo que eu aprecio e acabei trazendo para o trabalho como estratégia para nomear as pessoas e manter o anonimato pedido por elas.

Beira do Rio – Quais foram as práticas e os discursos revelados?

Telma Amaral – O amor é ponto de partida, mas ele vai sofrendo transformações ao longo do tempo. Daí, as práticas que eram comuns no namoro, como a troca de correspondências, presentes, beijos e abraços intermináveis, com o casamento, elas reduzem. Ao serem perguntados sobre isso, eles se dão conta da mudança e elaboram um discurso que diz que o amor se constrói e se reconstrói, diariamente, na convivência. Práticas comuns na época do namoro vão sendo deixadas de lado e substituídas por outras. Um entrevistado dizia que uma convivência tão intensa faz com que não sejam necessárias tantas cartas de amor, mas, por outro lado, se você não cuidar da relação, o amor tende a desaparecer. Eles usam a metáfora da planta que precisa ser regada para continuar viçosa, bonita e viva. Apontam o diálogo como uma ferramenta metodológica para você lidar com o dia a dia. O que não está bem precisa ser conversado. Esse "conversar sobre" é um elemento da contemporaneidade, não deixar as coisas acumularem. Trabalhando os dois universos em conjunção, percebi que não há diferença. É evidente que existem as especificidades, mas, na vivência cotidiana do amor, o fato de serem dois homens, duas mulheres, um homem e uma mulher não é o elemento mais importante. A rotina, a divisão de tarefas e as queixas são idênticas.

Beira do Rio – Esses temas "menores" estão ganhando cada vez mais espaço? Telma Amaral – Sim, primeiro você tem que ter a ousadia de dizer que vai estudar esses temas e uma das formas de fazer isso é divulgando-os aos alunos. Por exemplo, ministrei uma disciplina voltada para Gênero, Afetividade e Sexualidade. Usei referências que normalmente são lidas na pós-graduação e, a partir dali, três alunos já me procuraram querendo escrever o Trabalho de Conclusão de Curso sobre esses temas. Ao ousar discutir o assunto e colocá-lo em pauta, abrimos um campo de debate desde a graduação.

Telma Amaral Gonçalves é Doutora em Ciências Sociais, com ênfase em Antropologia(UFPA). Mestra em Antropologia e graduada em Ciências Sociais (UFPA). É professora da UFPA, atuando na Faculdade de Ciências Sociais.  Tem experiência na área de Antropologia, principalmente nos seguintes temas: amor, gênero, conjugalidade,  afetividade, sexualidade e namoro. É membro do Grupo de Estudos e Pesquisas Eneida de Moraes sobre Mulher e Relações de Gênero (GEPEM).

Agradecimentos do GEPEM a Rosyane Rodrigues, Editora do Jornal Beira do Rio (Núcleo de Divulgação Científica/ASCOM/UFPA), pela autorização de Clipping desta entrevista no Jornal Iaras n. 4.