N. 19 – Belém/PA - Novembro/Dezembro - 2014

Clipping - Imagens, cenários e histórias de mulheres

Jornal Beira do Rio - Universidade Federal do Pará . Ano XXVI Nº 104, Maio de 2012.

por Paulo Henrique Gadelha / Maio 2012
foto Alexandre Moraes


Em agosto de 2012, o Grupo de Estudos e Pesquisas "Eneida de Moraes" (Gepem), vinculado ao Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Universidade Federal do Pará, completará 18 anos, tendo, ao longo desse tempo, promovido diversas iniciativas concernentes à discussão da temática mulher e gênero na Amazônia, como encontros, palestras, cursos e a publicação de obras com os resultados das pesquisas.

A publicação mais recente Mulheres Amazônidas: imagens-cenários-histórias nasceu do IV Encontro Amazônico sobre Mulheres e Gênero, ocorrido em 2009 e foi organizada pelas professoras e pesquisadoras Maria Angélica Motta Maués, Maria Luzia Miranda Álvares e Eunice Ferreira dos Santos. "Com essa nova publicação, pretende-se reiterar a necessidade de se continuar pesquisando e dando visibilidade às questões sobre gênero e mulher na Amazônia", comenta Maria Luzia Álvares, coordenadora do Gepem.

Coletânea – Mulheres Amazônidas constitui-se em uma coletânea na qual a temática da mulher e os estudos de gênero são apresentados a partir de diversas áreas do conhecimento, como a Antropologia, a Sociologia e a Literatura. O livro tem 23 artigos, os quais estão diretamente relacionados às cinco linhas de pesquisa desenvolvidas pelo Grupo. São elas: "Mulher e Participação Política"; "Mulher, Relações de Trabalho, Meio Ambiente e Desenvolvimento"; "Gênero, Identidade e Cultura"; "Gênero, Arte/Comunicação, Literatura e Educação" e "Gênero, Saúde e Violência".

Nesse contexto de transversalidade de temas que convergem para a mulher, situa-se a discussão sobre as teorias do gênero, o qual, segundo a docente, é construído social e culturalmente. Essa construção sinaliza os papéis que são normatizados e supostamente seguidos por homens e mulheres. "Durante muito tempo, concebeu-se que as mulheres só poderiam trajar vestidos. Em razão disso, as primeiras que ousaram usar calça comprida foram estigmatizadas, pois esse tipo de vestimenta era considerado como típico, apenas, de homens", exemplifica.

Esses padrões geraram, ao longo do tempo, normas consuetudinárias (baseadas na tradição e nos costumes), as quais passaram a ser normatizadas por meio de leis. Essa trança de legislação, segundo a professora, implicou desigualdade. Por exemplo, durante certo período, as mulheres eram excluídas do processo eleitoral. Diante dessas situações, quem estava descontente foi à luta, o que resultou no Movimento Feminista.

Situações de desigualdade geraram lutas e mudanças

"A partir deste momento, foram quebrando-se tabus e normas de comportamento. Como consequência dessas ações, as leis tiveram que ser reformuladas. Um dos grandes exemplos desse processo foi quando o presidente Getúlio Vargas outorgou, em 1932, o direito das mulheres ao voto. Essa mudança deveu-se, sobretudo, à militância política, que vinha desde 1919, apoiada pela bióloga Bertha Lutz, um dos maiores expoentes do feminismo no Brasil. Com o decurso das décadas, muitas vitórias foram alcançadas, porém todas foram obtidas por meio de luta. Nada nos deram de graça", pondera Maria Luzia Álvares.

Um dos capítulos da coletânea trata da relação das mulheres com a política. Para a coordenadora do Gepem, outra desigualdade vivenciada no cotidiano é, justamente, a pouca representatividade da figura feminina no cenário político. Em 2008, foram eleitas apenas 14% de prefeitas no Pará, o que ainda reflete a concepção de que política é um metiê próprio de homens.

O capítulo "As tramas da violência doméstica: assédio e adoecimento psicológico" aborda um dos temas mais delicados relacionados à mulher: a violência doméstica. Aqui, discute-se, por exemplo, a questão da agressão psicológica e como estavam configurados os cenários da violência conjugal em Belém, nas décadas de 60 e 70 do século XX. "A Lei Maria da Penha, que pode levar o agressor à prisão, também foi resultado das lutas travadas pelo reconhecimento da cidadania feminina. Muitos juízes, inclusive, ainda questionam a validade dessa lei, indagando se ela não está configurando um caso de discriminação", diz a pesquisadora.

Escritoras paraenses não estão nos programas escolares

O universo feminino na Literatura é tema do capítulo "O saber literário de mulheres amazônidas". A professora Eunice Santos, uma das organizadoras do livro e vice-coordenadora do Gepem, destaca que "as escritoras paraenses são excluídas dos programas de vestibulares. Em razão disso, elas também não são estudadas nos ensinos fundamental e médio nem, obviamente, incluídas nos processos seletivos das universidades", ressalta.

Para Eunice Santos, a ausência dessa produção literária nas agendas de leituras das instâncias escolar e universitária faz com que grande parte desses livros fique no anonimato dos arquivos ou em edições esgotadas, visto que a reedição é praticamente inexistente. Segundo ela, seria pertinente e oportuno se os professores que ministram Língua Portuguesa ou Literatura Brasileira incentivassem seus alunos a consultar os acervos das obras das escritoras paraenses.

O Gepem dialoga com o movimento social organizado. A União de Mulheres de Belém (UMB), o Movimento de Mulheres do Campo e da Cidade (MMCC), o Fórum de Mulheres da Amazônia Paraense (FMAP) e o Conselho Estadual dos Direitos da Mulher são alguns desses parceiros. Nesse sentido, o Grupo busca contribuir, de alguma forma, para o desenvolvimento da sociedade.

"Se nós apenas pesquisássemos e deixássemos nas prateleiras os nossos estudos, não estaríamos contribuindo com a justiça social. É muito importante o contato com outros grupos que travam a mesma luta que a nossa. Assim, ganhamos força conjuntamente. Dessa forma, os estudos sobre mulher e gênero, que, na Região Norte, contaram com o pioneirismo da Universidade Federal do Pará, tornam-se cada vez mais consolidados. A busca pela equidade entre os gêneros, a qual é uma luta árdua, é um processo contínuo", conclui Maria Luzia Álvares.

Serviço: Para adquirir o livro Mulheres Amazônidas: imagens-cenários-histórias, entre em contato com o Gepem
Telefone: (91) 3201-8215
E-mail: Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.