N. 19 – Belém/PA - Novembro/Dezembro - 2014

Seção: Mulheres, Política e Poder

Maria Luzia Miranda Álvares


Mulheres nos Cargos Parlamentares: algumas percepções

Numa sociedade democrática, a participação política não se restringe aos candidatos e à elite dirigente partidária, mas ao movimento responsivo dos cidadãos por meio do ato de votar. O sistema democrático representativo se legitima pelo consenso que se verifica através de  eleições livres e do sufrágio universal, sendo os atores principais, nesse sistema, os partidos políticos e os cidadãos e cidadãs que participam, quer com direito a eleger-se, quer com direito a eleger outrem para um determinado cargo político, em um período específico.

Nessa compreensão, a pesquisa Gênero, Política e Representações Sociais avaliou, em 2006, a presença das mulheres brasileiras e paraenses aos cargos parlamentares (AL e CD) nas eleições proporcionais (câmara de deputados e assembleias legislativas), num degrau anterior à escolha pelo eleitorado, ou seja, no nível de candidaturas, procurando identificar se as trajetórias pessoais de um grupo de candidatas constituíam capital político para a inclusão desse gênero nas listas eleitorais e qual nível de representação social se tornava evidente para um desempenho favorável ou sedutor, entre o eleitorado.

A motivação para essa investigação foi a suposição de que a trajetória pessoal das mulheres influencia a escolha ou a indicação para candidatar-se a um cargo parlamentar,   conforme seja positiva a avaliação sobre os recursos pessoais acumulados e o padrão de representatividade social que detêm. Agregou-se a essa hipótese o objetivo de compreender o modo como às candidatas: avaliavam suas trajetórias pessoais; explicavam as demandas aos recursos exigidos pelo mercado/contexto político; captavam as representações sociais de candidatos e candidatas exitosos/as ou não, assim também o próprio êxito ou fracasso nas urnas.

Entre as metas da pesquisa, um dos focos era elaborar uma base amostral dessas candidaturas de mulheres para um estudo de caso sobre os recursos individuais e coletivos que elas acumularam e apresentavam como capital político para a competição (histórias de vida, biografias etc.). Entretanto, apesar de uma parte considerável de informações ter sido extraída e analisada, alguns objetivos não foram executados. Contudo, essa “não conclusão” ensejou dados sobre a questão das cotas partidárias - conteúdos exemplares para qualificar o exame da relação entre o partido e a base de filiadas, da mesma forma a ausência de penalização aos partidos que não cumprem essa norma eleitoral.

Assim, a partir desses dados --, e para se examinar outros dilemas das mulheres, os quais  se cruzam com os ganhos e as conquistas da presença delas na instância da competição eleitoral e que convergem para novas trajetórias no campo político --nos anos subsequentes a essa investigação  foram subsidiadas pelo CNPq  duas pesquisas: Os Movimentos de Mulheres e Feministas e sua Atuação no Avanço das Carreiras Femininas nos Espaços de Poder  Político (2008-2010);Mulheres na Política: histórias de percursos e práticas(2010-2012).

Maria Luzia Miranda Álvares é Doutora em Ciência Política, Coordenadora do GEPEM/UFPA e uma das pioneiras dos estudos de mulher e gênero, no Pará, desenvolvendo trabalhos sobre a temática feminismo, mulher e gênero, com incursões sobre o entrelaçamento das representações socioculturais nas estruturas de poder.