N. 19 – Belém/PA - Novembro/Dezembro - 2014

Em Nome das Filhas, do Pai e da Ética do Cuidado *

Fonte: livrepensar.wordpress.com

No artigo Em Nome das Filhas, do Pai e da Ética do Cuidado: vivências de abuso físico, emocional e sexual, Adelma Pimentel** focaliza aspectos do processo de subjetivação de uma adolescente que, na infância, foi abusada sexualmente pelo pai. Examinando as repercussões dessa violência no desenvolvimento emocional e social da vítima, constatou que para a adolescente as referências familiares e a infância estavam significativamente danificadas. Em suas análises, a autora do artigo considera que “este é um tipo de violência que pode repercutir no desenvolvimento emocional, cognitivo  ou social de uma criança, ainda mais quando é provocada pelo cuidador consanguíneo. Diz também que especialmente nesse contexto, é importante verificar o papel da família na observação e cumprimento das necessidades básicas da criança, não apenas no que diz respeito à moradia, higiene, alimentação, saúde, dentre outros, mas também às necessidades afetivas da mesma, permitindo assim que seus mecanismos estruturais, psíquico-afetivo e psíquico-cognitivo sejam preservados".

Referendando estudos anteriores fundamentados em Genovés (1999), a pesquisadora registra que a instalação e manutenção das diversas formas de violência podem ser explicadas a partir de várias perspectivas:

a) cultural que aponta que a origem da violência intrafamiliar (ocidental) é derivada pela valência dos valores patriarcais;

b) estrutural cuja tese é a mesma, pois afirma que é sobretudo na cultura da economia capitalista que são originadas as desigualdades sociais e a falta de oportunidades, duas justificativas para o acumulo de tensões e agressividade indutoras da violência masculina;

c) psicopatológica, em que a raiz da violência familiar se dá a partir das disfunções de personalidade do agressor, destacando os traços de impulsividade e psicopatia e consumo abusivo de álcool e drogas;

d) interacional, a agressão familiar é calcada nos estilos da relação verbal, comportamental e emocional que existe entre o casal;

e) jurídica trata da aplicação da lei, logo, não se propõe a explicar a etiologia da violência intra familiar, sim, desenvolver o grau de detecção, denúncia e condenação penal dos agentes de maus-tratos.

Considerando que as raízes da violência não são identificadas por único fator e que “a violência sexual é um tipo de maus-tratos que repercute na saúde psicológica dos envolvidos, direta e indiretamente, e no âmbito público”, conclui a pesquisadora que há necessidade de “intervenções que abranjam as dimensões privada e pública estendidas à vitima, à família e ao agressor”. Assim também, “avaliar a personalidade, a história familiar, a tipologia, a dinâmica e a incidência dos atos que o agente da violência pratica; medidas de atendimento punitivas legais e de tratamento; acolhimento em centros e delegacias especializadas e assistência legal, jurídica, social e psicológica, entre outras”.

*- Texto adaptado do artigo Em Nome das Filhas, do Pai e da Ética do Cuidado: vivências de abuso físico, emocional e sexual, de Adelma Pimentel, publicado na coletânea Mulheres e Gênero: as faces da diversidade( Ed. GEPEM-Coleção Mulheres e Gênero na Amazônia,v. 1).

**- Professora da Universidade Federal do Pará. Doutora em Psicologia Clínica. Pesquisadora do CNPq e do GEPEM. Coordenadorada Linha de Pesquisa “Gênero, Saúde e Violência”- GEPEM/UFPA.