N. 19 – Belém/PA - Novembro/Dezembro - 2014

Gênero na Amazônia: ressignificando vivências de homens e de mulheres

Maria Luzia Miranda Álvares

Os primeiros diálogos a respeito da criação de um grupo de estudos sobre a questão da mulher na UFPA ocorreram no início dos anos oitenta entre as professoras Edna Maria Ramos de Castro, Rosa Acevedo Marin e sua então orientanda Maria Luzia Álvares. Nas conversas, foram surgindo evidências de estudos que tangenciavam a temática em questão sem, necessariamente, se ater em uma problemática objetivamente centrada nas várias situações que já se salientavam em uma produção livresca do sul e do sudeste circulando escassamente nas livrarias da cidade de Belém.

O I Encontro de Pesquisadoras/es sobre a Mulher e Relações de Gênero do Norte e Nordeste, promovido pelo NEIM/UFBA, em 1992, favoreceu a criação da Rede Feminista Norte e Nordeste de Estudos e Pesquisas Sobre Mulher e Gênero (REDOR N/NE) e estimulou a formação de grupos de pesquisas nas universidades dessas duas regiões. Com isso, o processo constitutivo de um grupo nascente, ao congregar pesquisadoras da UFPA e de universidades particulares e estaduais do Pará, fortaleceu-se num marco de efeitos colaterais sobre o enfoque da história das mulheres. Entre os anos 1992 e 1994, vislumbram-se indícios de que, no ambiente amazônico, essa temática estava se tornando um ponto de convergência, um centro de debates, na rede teórica das Ciências Sociais.

Na manhã do dia 26 de agosto de 1994, no auditório do então Centro de Filosofia e Ciências Humanas/UFPA, reuniram-se pesquisadoras e docentes de várias áreas de conhecimento, convocadas uma semana antes, para criar o Grupo de Estudos e Pesquisas “Eneida de Moraes” sobre Mulher e Relações de Gênero – GEPEM. E no dia 27, essas associadas encontraram-se na Praça Eneida de Moraes registrando formalmente a relação com a patrona do grupo.

No I Encontro Amazônico sobre Mulher e Relações de Gênero, em novembro/1994, o GEPEM congregou estudiosos/as da Região Norte. Daí em diante, as atividades sobre a temática foram estimuladas nos cursos de graduação, pós-graduação, projetos de pesquisas e trabalhos de classe, presença nos eventos dos movimentos de mulheres paraenses, apresentação de trabalhos nos encontros locais, regionais e nacionais.

De 1998 a 2008, uma parte das associadas investiu na qualificação acadêmica, uma necessidade que se impôs pela nova dinâmica do avanço da pós-graduação nas universidades. A maioria das “meninas do GEPEM” se doutorou em diversos centros internacionais, nacionais e locais.

O processo de construção de saberes num espaço onde o conhecimento científico tem um padrão tradicional apresenta dificuldades para a inserção de novos enredos. Para as rupturas ao status quo, houve a presença constante das pesquisadoras da área de gênero em atividades múltiplas e a evidência do formato da transversalidade entre as grandes teorias e os enfoques contemporâneos que expunham diferenciais nos marcadores sociais, quando se processavam com a perspectiva de gênero.

Esses estudos ajudaram a problematizar a noção de sujeito universal e mostraram o caráter hierárquico e assimétrico subjacente à construção de feminilidades e masculinidades. As marcas sociais introduzidas nas matérias evidenciaram a multiplicidade de práticas e representações de mulheres e homens, pautadas em diferenças: étnicas, raciais, status, geração, sexualidade e orientação religiosa, alguns dos principais marcadores.

Nesses anos de presença no âmbito acadêmico e na sociedade civil, o GEPEM construiu uma rede de estudos de gênero na Amazônia, contribuindo para o crescimento da produção de saberes, práticas e linguagens. E tem mantido, desde 1994, um fluxo permanente de ações cooperando com a agenda política dos movimentos sociais, do ensino da graduação e pós-graduação na UFPA. Além disso, também tem preservado o compromisso com a luta pelos direitos das mulheres, haja vista que estes são humanos.

Neste sentido, a criação da Revista Gênero na Amazônia sela a mais ampla iniciativa para contribuir no processo inicial objetivado para o debate científico no campo das Ciências Humanas e Sociais. E desse modo, espera romper com as dificuldades regionais em torno da área editorial, procurando divulgar estudos interdisciplinares sobre mulheres e gênero publicando parte dessa produção elaborada a partir das atividades desta histórica caminhada. Firma também o compromisso de manter a interlocução com as autoras e autores das demais regiões que tratam do tema, socializando os saberes e práticas das mulheres desses espaços, fomentando mais esta estratégia de disseminação de estudos em suas diferentes manifestações e enfoques teórico-metodológicos, numa perspectiva inter e multidisciplinar. E se propõe a publicar artigos, traduções, ensaios, resenhas, entrevistas, dossiês temáticos inéditos e outras manifestações intelectuais de autores/as brasileiros/as ou estrangeiros alcançando a finalidade de uma revista acadêmica.

Este olhar multivariado de imagens refletindo estudos na perspectiva de gênero aponta para as maneiras singulares de os/as pesquisadoras/es reverem suas teorias e apreenderem, através de seus dados, a ressignificação das vivências de homens e mulheres que circulam em múltiplas “estradas” desta região e alhures. Ao aplicarem suas metodologias de análise, procuram extrair de um mapa mundial de teorias sociopolíticas-antropológicas, da literatura, da educação etc., em seus objetos de estudo, o motivo central desses desenhos.

Por fim, a Revista Gênero na Amazônia não pretende ser uma obra fechada de e sobre a situação das relações de gênero na região amazônica, mas espera despertar a atenção da comunidade brasileira para a significativa produção acadêmica que circula no território mundial do qual fazemos parte. Nessa perspectiva, ocorreu o lançamento da primeira edição da revista, disponível em www.generonaamazonia.ufpa,br.

Maria Luzia Miranda Álvares é Doutora em Ciência Política, Coordenadora do GEPEM/UFPA e uma das pioneiras dos estudos de mulher e gênero, no Pará, desenvolvendo trabalhos sobre a temática feminismo, mulher e gênero, com incursões sobre o entrelaçamento das representações socioculturais nas estruturas de poder.