N. 19 – Belém/PA - Novembro/Dezembro - 2014

Entrevista

Entrevista em Formato de Reconto, Extraída de Informações acerca dos Episódios que Circunstanciaram a Indicação de  Ana Alice Alcântara Costa (NEIM/UFBA) ao Prêmio Bertha Lutz 2012.

“Fui apresentada pela Secretaria Estadual de Políticas para Mulheres (SPM /Bahia). Fiquei sabendo também que eu havia sido indicada há uns cinco anos pela Comissão Especial da Mulher da Assembleia Legislativa da Bahia, à época presidida pela Deputada Sônia Fontes, mas parece que não teve ninguém no Senado para comprar a briga como a Lídice da Mata fez agora.

No total, foram 30 candidatas. O fato de a Dilma ter entrado na história deu o maior ibope ao prêmio e eu acabei pongando na fama da presidente.

Foi tudo muito emocionante, em especial na entrega do prêmio. Antes a gente não tem muita ideia do que é, mas quando chega lá o formalismo do Senado dá uma ideia do significado do ritual. Já havia participado em várias atividades no Congresso Nacional sempre na condição de militante (feminista ou sindical) fazendo lobby. Dessa vez, entrei como convidada e sendo tratada como tal: recepção na entrada, reunião prévia na sala da presidência do Congresso e depois a recepção à presidente Dilma na chegada ao Congresso, logo no final da rampa. Isso tudo foi muito emocionante.

Abraçar a Dilma, tanto na chegada dela ao Congresso como depois na hora da entrega do prêmio, me transformou em uma menina emocionada diante de uma heroína. Nunca pensei que ficaria tão emocionada diante de alguém. Acho que foi a emoção da militante feminista diante de uma mulher que chegou à mais alta posição de poder. A Dilma ali era a representação de tudo aquilo que tanto lutamos, principalmente nós que trabalhamos com participação política nas instâncias formais.

Acho que o prêmio foi o reconhecimento de um trabalho coletivo realizado em quase 30 anos. O prêmio não era meu e sim da equipe do NEIM. Nós fizemos juntas esse caminho. Certamente tenho consciência de que até aquele momento o prêmio não era um reconhecimento nacional do nosso (da equipe NEIM) trabalho de fato e sim um reconhecimento na Bahia, levado para o nacional pela SPM/BA e por Lídice. Tudo que consegui fazer foi de forma coletiva. Sem as "meninas" do NEIM não teria NEIM, não teríamos o PPGNEIM, a graduação, não teríamos reconhecimento. Sinto que esse também é o sentimento de toda a equipe. Tenho certeza de  que cada uma viu no prêmio uma parcela do seu trabalho e isso que é o bom. O prêmio é a prova de que juntas estamos seguindo um caminho certo.

Em razão de todo o processo que envolve o prêmio não ter espaço para análise, para explicações, não consegui falar do nosso trabalho, chamar atenção para nossas dificuldades e resistências nas universidades, nossa exclusão por sermos nordestinas. Mas, além dessa frustração, ficou a esperança de que o prêmio possa servir para tornar o NEIM mais respeitado na UFBA, assim também a de que esse reconhecimento externo possa se configurar em um reconhecimento/respeito interno por parte da administração”.

ANA ALICE ALCÂNTARA COSTA é Professora da Universidade Federal da Bahia (UFBA), vinculada ao Departamento de Ciência Política, e Pesquisadora do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Mulher (NEIM/UFBA).


CREDENCIAMENTO DA PESQUISADORA AO PRÊMIO

Transcrição Literal de Dados Constantes no Formulário de Indicação de Ana Alice Alcântara Costa ao Prêmio Bertha Lutz 2012.

Por que Tipo de Trabalho ela Está sendo Indicada?

Pelo ineditismo e pioneirismo de trazer para dentro de uma estrutura profundamente conservadora e patriarcal como é a Universidade Federal, há mais de vinte anos, a teoria e a práxis feminista, forçando as portas da Academia a abrir-se para “as mulheres e o feminismo” como campo do conhecimento, criando um núcleo de pesquisa e ensino numa temática que ainda hoje encontra sérias resistências no mundo acadêmico. Embora ofereça hoje Mestrado e Doutorado reconhecidos e concorridos, o NEIM enfrenta muitos problemas para usufruir dos mesmos direitos de outros núcleos semelhantes da UFBA e ter sua institucionalidade devidamente reconhecida Esta aliança entre prática feminista e produção acadêmica se deu no início dos anos 80, num estado como a Bahia notoriamente patriarcal e coronelista onde as relações sociais e de gênero se pautam na desigualdade e no conservadorismo. O NEIM nasceu, cresceu e fortaleceu-se pautado numa relação estreita com os movimentos sociais. Sua história é de articulação e assessoramento às associações de mulheres dos bairros populares de Salvador, trabalhadoras rurais vinculadas ao MST, sempre no sentido de contribuir para a formação de uma consciência critica sobre a condição feminina.  Exemplos dessa participação: articulação das creches comunitárias de Salvador, em especial do subúrbio ferroviário para a apresentação de emenda popular sobre creches na lei orgânica do Município em 89; apoio e participação na organização dos acampamentos de trabalhadoras rurais que vêm sendo realizados há 10 anos em Salvador (infraestrutura, organiza e ministra oficinas, dentre outras contribuições); criação do Centro de Apoio Humanitário – CHAME que trabalha com a prevenção do tráfico de mulheres e combate ao turismo sexual; participação na criação de DEAMs no Estado, participação nas conferências de políticas para as mulheres e na implementação de projetos e programas de políticas para as mulheres no Estado da Bahia.

Em que Nível Realiza esse Trabalho (Nacional, Regional, Local ou Comunitário)?

Local e comunitário na organização e formação de mulheres de setores populares e na Academia Regional e Nacional, através da articulação de programas, projetos de cunho acadêmico e de políticas educativas.

Ela ou Seu Trabalho Faz Parte de alguma Organização ou Rede?

O NEIM é integrante das seguintes  redes de articulação do feminismo acadêmico: Rede Estudos Feministas – REDEFEM; Rede Norte Nordeste de Estudos sobre Mulheres e Gênero – REDOR (uma das fundadoras); Observatório da Aplicação da Lei Maria da Penha; Núcleo de Articulação Feminista para o Mundo do Trabalho; e há 15 anos integra a Rede de Atenção às Mulheres em Situação de Violência de Salvador e Região Metropolitana, que reúne entidades e grupos dos movimentos de mulheres e servidores dos serviços governamentais das diversas áreas.

Caso Positivo, sua Organização é Governamental ou não Governamental (ONG)?

Governamental (vinculada a uma instituição federal de ensino superior).

Quem se Beneficia com o seu Trabalho?

As mulheres em geral,  especialmente as que vivenciam situação de maior vulnerabilidade social, e as mulheres de setores comunitários organizados; estudantes de graduação e pós-graduação, professoras e professores da Universidade Federal da Bahia.

Desde quando a Candidata Trabalha nesta Área?

Há mais de 30 anos. Participava ativamente das lutas políticas pelo fim da ditadura no Brasil e na América Latina, já questionando, na própria organização a posição subalterna das mulheres, atitudes discriminatórias dos homens, e associou-se ao Movimiento pela Libertación de La Mujer, no México. Chegando ao Brasil, integrou o Grupo Feminista Brasil Mulher e, na Universidade, com a criação do NEIM deu e dá continuidade à sua luta.

Que Mudanças/Avanços Duradouros Resultam do Seu Trabalho?

Contribuição para a formação de uma geração de mulheres e homens pensadores qualificados e para interferir e implementar políticas públicas fundamentadas e comprometidas com o respeito à diversidade e aos direitos humanos; transformação das mentalidades de gestores educacionais no sentido de reconhecer e incorporar como área de conhecimento o feminismo e ter que considerá-lo. São exemplos, a Reitoria, a CAPES - Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, Ministério de Educação as instituições de ensino hoje. A temática de gênero deixou de ser marginal à Academia. Em cacheVocê marcou isto com +1 publicamente.

Que Dificuldade Enfrenta para Realizar seu Trabalho?

Descreva as Barreiras Físicas, Econômicas, Culturais e

Perigos Encontrados no Seu Campo de Ação.

Resistências ideológicas e culturais por parte de gestores públicos, educacionais e acadêmicos que se reflete na falta de apoio institucional e financeiro na implementação de programas de formação. O NEIM, em muitas ocasiões tem servido como “vitrine” a exibir compromisso da UFBA com as questões de gênero, articulação com os desafios da atualidade. Ocorre que nestes 28 anos de existência toda a estrutura de pessoal, equipamentos e apoio ao funcionamento em geral do NEIM tem sido garantida através de projetos resultantes do esforço da sua equipe. A luta para que o reconhecimento ao NEIM hoje existente enquanto produção acadêmica, extensão, se traduza também no apoio efetivo à sua infraestrutura, igualando-o a núcleos semelhantes da UFBA, cujas temáticas não têm como centro as mulheres e o feminismo.


MICROBIOGRAFIA DE ANA ALICE ALCÂNTARA COSTA

Transcrição Literal de Dados Constantes no Formulário de Indicação de Ana Alice Alcântara Costa ao Prêmio Bertha Lutz 2012.

Baiana de Caravelas, cidade ao sul da Bahia, típica representante da geração de 1968, ativista do movimento estudantil no início dos anos 70, período mais duro da ditadura militar no Brasil. Como grande parte da juventude de sua geração, participou intensamente das lutas por democracia, direitos humanos e em defesa da educação pública, laica e de qualidade. No fim dos anos 70, fazendo mestrado em Sociologia Política na Universidade Nacional Autônoma do México, ingressou no Movimiento de Liberación de La Mujer, organização do movimento feminista mexicano, onde permaneceu até 1981, quando retornou para o Brasil. Aqui vinculou-se ao Grupo Feminista Brasil Mulher, Secção Bahia, de criação recente, primeiro grupo feminista autônomo no Estado.

No ano seguinte, através de concurso público ingressou na Universidade Federal da Bahia, como professora do Departamento de Ciência Política, onde continua atuando. Em 1983, juntamente com outras colegas feministas, criou o NEIM - Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Mulher, o segundo das universidades brasileiras. Desde sua fundação, o NEIM teve como princípio a articulação entre teoria e práxis feministas na Academia, trabalhando sempre em articulação com os movimentos sociais, em defesa dos direitos das mulheres e pela transformação da condição feminina. Exemplo dessa atuação foi a intensa participação no Lobby do Batton no período da Constituinte Federal, posteriormente na elaboração do texto constitucional do Estado da Bahia e na Lei Orgânica do Município de Salvador, na criação, em 1985, da primeira DEAM e na implantação de políticas publicas para Mulheres.

Em 1994 retornou ao México para concluir seus estudos de doutorado onde defendeu a tese sobre a participação política da mulher na Bahia publicada posteriormente com o titulo de “As donas no poder: mulher e política na Bahia”. Em 2004 concluiu seu pós-doutorado em teoria feminista no Instituto de Estúdios de la Mujer da Universidad Autonoma de Madrid.

Desde a criação do NEIM em 1983, Ana Alice tem concentrado seus esforços na institucionalização dos estudos feministas na Academia, não só através da produção de conhecimento, mas também na área do ensino com a criação de disciplinas, cursos e programas de estudos sobre mulheres e relações de gênero. Lutou pela criação, na estrutura da UFBA, do  primeiro Programa de Mestrado e Doutorado em Estudos Interdisciplinares sobre Mulheres, Gênero e Feminismo--PPGNEIM, implantado em 2005, que se encontra em  pleno funcionamento, e  já titulou  30 mestres/as e 8 doutores/as. Sempre na perspectiva de ampliar este campo do saber, em 2008 colaborou na criação do primeiro curso de graduação no tema Gênero e Diversidade que disponibiliza para o vestibular 50 vagas anualmente.

É professora do PPGNEIN e do Programa de Pós-Graduação em História (PPGHist), pesquisadora do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Mulher, órgão suplementar da UFBA. Bolsista (2006/2011) do Consórcio do Programa de Pesquisas (Research Programme Consortium - RPC) sobre o Empoderamento das Mulheres (Pathways of Women’s Empowerment), financiado pelo Department for Internacional Development - DFID da Grã- Bretanha. Tem experiência na área de Ciência Política, com ênfase em Atitude e Ideologias Políticas, atuando principalmente nos seguintes temas: gênero, cidadania, condição feminina, comportamento político, políticas públicas e feminismo.