N. 19 – Belém/PA - Novembro/Dezembro - 2014

Seção: Autoria Feminina na História Literária do Pará

Eunice Santos


PERCURSOS LITERÁRIOS DE ESCRITORAS PARAENSES

Apontamentos de Pesquisa

Vários estudos afirmam que os silêncios historiográficos a respeito do que escreveram as mulheres são vestígios da discriminação a que foram submetidas pelo julgamento estético patriarcal. Nesse contexto hegemônico - em que pesem a tradição e o espaço geográfico, isto é: ser escrita de mulher e do norte do Brasil – a produção literária de autoria feminina paraense ainda carece de ser incluída nas agendas de leituras, tanto no lócus universitário quanto no escolar, conforme pesquisas realizadas no âmbito do GEPEM ( 2005-2010) revelando que, na historiografia literária local e nacional, há escassos registros sobre a escritura das mulheres paraenses, apesar da  existência de um potencial acervo produzido por elas e  publicado em livros e periódicos.

Em face dessa constatação, e considerando que os “rituais de consagração” de um/a escritor/a se fazem, entre outros, pela publicação e conhecimento de sua obra e vida  intelectual  inseridas na poética e no pensamento cultural da época, a seção Autoria Feminina na História Literária do Pará pretende ser um espaço de divulgação da poesia e da prosa ficcional das mulheres paraenses.

Neste sentido, em cada edição do Iaras serão incluídas referências a três escritoras, dentre as catalogadas no acervo do GEPEM, intencionando  evidenciar seus  percursos literários produzidos em épocas e circunstâncias  históricas   diversas  e, assim,  estimular  “um novo olhar” sobre a singularidade dessa escritura  no contexto amazônico  e sua importância para a  memória cultural do Pará.

Escritoras Paraenses: perfil de vida e obra

  • · Antonieta Clairefont de Sousa Cruz.

Nasceu no município de Cametá (1903) e faleceu em Belém, no dia 14 de fevereiro de 1986. Entre outras instituições culturais, era filiada à Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil (AJEB-Pará). Dedicada às Letras, especialmente à poesia, em 1971, estreou literariamente publicando o livro Amarantos em Novembro, editado pela Livraria São José (RJ) e prefaciado pelo crítico Arlindo Varela.

Amarantos em Novembro é uma coletânea de poemas anteriormente publicados em antologias, revistas e jornais. Tematizando a natureza, o amor e a condição humana, o livro foi muito bem aceito pela crítica, consagrando Antonieta Cruz como uma das mais promissoras poeta do norte do Brasil.

  • Josette Lassance Maya.

Nasceu em Belém do Pará (1962). Graduou-se em História e Artes Plásticas (UFPA). Fez parte do Projeto Quarentena de Arte "Açúcar Invertido" (2002-Funarte /RJ); Projeto Circuito Amazônia Celular de Cultura (2003); 49ª Feira do Livro de Porto Alegre (2004). É poeta, contista e cronista premiada várias vezes em concursos literários nacionais e internacionais. Entre os livros publicados, estão: Vida de Bruxa (Poemas - 1990); Os Gatos Nus Passeiam sobre os Telhados Sujos (Contos e Poemas-1994); Galeria dos Maus (Poemas-2000); Prazer Clandestino (cartões fotográficos- poemas /2001); O Prédio ( contos-2002), além de poemas  em antologias e revistas( no Brasil e exterior).

A escritura de Josette Lassance, tanto poética quanto ficcional, transita entre a crítica social do cotidiano e uma compreensão ontológica da realidade. Exemplos disso são, entre outros: Os Gatos Nus Passeiam sobre os Telhados Sujos (1994), coletânea de contos e poemas  caracterizada por um  discurso irônico e filosófico sobre o cotidiano; e Galeria dos Maus ( 1999) coletânea de  poemas em versos livres cuja  mensagem poética denuncia um caos humano inevitável. A métrica é densa e metafisicamente sustenta a polifonia dos poemas.

  • Yara de Araújo Cecim.

Nasceu no município de Santarém (1916) e faleceu em Belém (outubro de 2009). Poeta, contista e artista plástica estreou em livro e na vida literária aos 60 anos, ocasião em que vieram a lume textos produzidos no período da adolescência da escritora. Publicou os livros: Folha de Outono (Poemas, 1983; reedição, 1997); Taú-Taú ( Contos, 1989); Arabescos ( Poemas,1989); História Daqui e Dali ( Contos,1993); Lendário: contos fantásticos da Amazônia (2004). Possui textos publicados em  Antologias e citações em dicionários críticos-literários. Pertenceu a várias agremiações literárias e jornalísticas em nível nacional e internacional. Recebeu inúmeras homenagens de mérito cultural. De sua convivência com os mitos e lendas da Amazônia, extraiu a matéria-prima de seus contos (todos premiados).

Um perfil da escritura ficcional de Yara Cecim pode ser conferido, a exemplo, na coletânea de contos Taú- Taú, história ambientada  na Amazônia narrando o extermínio de um grupo de coletores de castanha, devorados antropofagicamente por seres da lendária tribo dos Taú-Taú (homens-macacos). A trama ficcional é linear e dialogada, criando um elo mítico que oscila entre o real e o imaginário. Em outra dimensão literária, situam-se as composições poéticas como é o caso de Folha de Outono, livro publicado em 1983 e reeditado em 1997, contendo 65 poemas em versos livres apologéticos sobre a solidão e o amor ideal. A atmosfera poética é sustentada e tecida numa dramaticidade soturna e pessimista, mesclando emoção e métrica ao fazer analogia entre a vida e a “tristeza” do cair das folhas do outono.