N. 19 – Belém/PA - Novembro/Dezembro - 2014

Caminhos de uma Escritura Literária de Mulher

Eunice Ferreira dos Santos


A  autoria feminina, ao longo da história social, em grande parte, foi relegada a uma condição “marginal” com a justificativa de não enquadramento aos padrões estéticos e temáticos desejados. Em tal contexto de tradição hegemônica,  Teresa Margarida da Silva e Orta (São Paulo, 1711 - Lisboa, 1792), no século XVIII, arriscou-se na aventura de trilhar  os amplos e proibidos caminhos da escritura literária, sendo considerada a primeira mulher a escrever ficção em língua portuguesa.

Dessa ousadia de  Teresa Margarida, entre outras obras, resultou, em 1750, o livro Máximas de Virtude e Formosura com que Diofanes, Clymenea e Hemirena, Principes de Thebas, Vencerão os mais Apertados Lances da Desgraça, referenciada como uma  relevante contribuição à vanguarda da história literária das mulheres, visto  sua importância para o estudo do romance como gênero literário moderno.

Entretanto, por  essa aventura  de ser mulher e escrever um romance em pleno  século das luzes,  teve que esperar  dois anos para que o livro fosse aprovado  pelas Censuras do Santo Ofício, do Ordinário e do Paço. Após esse julgamento , foi  publicado, em 1752,  pela Tipografia de Miguel Menescal da Costa, sendo a autoria do romance grafada com o pseudônimo Dorotéia Engrácia Tavareda Dalmira. Na mesma época, sobre essa edição,  ironicamente,  a Gazeta de Lisboa divulgou a seguinte nota:

“Também saiu a luz o livro intitulado Máximas de virtude e formosura,    obra  discreta, erudita, política e moral, em que a sua autora, se não  estrangeira ao menos peregrina, no discurso, e na elegância, imita, ou excede ao Sapientíssimo Fenelon na sua viagem de Telêmaco fazendo-se digna das mais atenciosas venerações. Vende-se na loja de Francisco da Silva de fronte de S. Antônio”( 17 de agosto de 1752).

Contudo, apesar desses interditos,   a  repercussão do romance ensejou que, em 1758, a obra  e o nome da escritora fossem  incluídos na Biblioteca Lusitana de Barbosa Machado seguindo-se, a partir daí,  reedições com  o título  Aventuras de Diófanes ou Máximas de Virtude e Formosura com que Diófanes, Climinéia e Hemirena, Príncipes de Tebas, Venceram os mais Apertados Lances da Desgraça, mantendo o pseudônimo Dorotéia Engrácia Tavareda Dalmira. Neste sentido:  a) 1777, segunda edição,  pela Régia Oficina Tipográfica, e uma versão impressa  com o  título Aventuras de Diófanes, Imitando o Sapientíssimo Fénelon na sua Viagem de Telêmaco; b)1790, terceira edição, pela Régia Oficina Tipográfica, sendo que nesta , mesmo mantido o pseudônimo da romancista, curiosamente o editor atribuiu a autoria do livro a Alexandre de Gusmão, falecido há 37 anos. Como essa violação de direitos autorais não foi questionada por Teresa Margarida,  a crítica avaliou que o silêncio  dela sobre o assunto devia-se à ousadia  de, sendo mulher,   ter escrito e publicado um romance moderno - gênero ficcional  advindo da literatura inglesa do século XVIII -  façanha  atribuída aos homens, visto que, segundo o cânone literário à época, as mulheres escreviam sobre  temas “cor-de-rosa e  devaneios pueris”.

Ressalte-se que em todas as reedições do livro, apesar de alguns ajustes de título, a escritora  manteve a trama ficcional configurada desde a primeira edição,incluindo na narrativa importantes discussões sobre a mulher. Esta assertiva se evidencia  nas ações, sobretudo, de  Hemirena, a protagonista do romance: veste-se com roupas masculinas, chama-se Belino e realiza proezas para salvar a mãe e o noivo de um naufrágio, "disposta a vencer os maiores assaltos de sua cruel fortuna." Paradoxalmente, Hemirena, apesar de difundir os ideais de mulher casta, pura, obediente e pouco falante,possui força física, domínio da arte da retórica, inteligência e determinação de uma guerreira, contrariando assim o modelo de mulher frágil.

Essa polêmica ficcional saiu das páginas do romance para a vida real, visto que Teresa Margarida, em 1770, possivelmente envolvida numa  campanha contra o  Marquês de Pombal, foi presa sob a alegação de haver mentido ao rei D. José. Por esse delito, permaneceu sete anos encarcerada no Mosteiro de Ferreira e Aves e lá escreveu:  Poema  Épico Trágico; Novena do Patriarca São Bento; Petição  que a Presa Faz à Rainha N. Senhora.

Eunice Ferreira dos Santos é Vice-Coordenadora do GEPEM e Doutora em Letras, área de concentração Literatura Comparada.

Texto e imagem adaptados de informações extraídas das  seguintes fontes: http://www.nielm.com.br; http://pt.wikipedia.org; http://www.superdownloads.com.br/; Dicionário mulheres do Brasil: de 1500 até a atualidade. Organizado por Schuma Schumaher e Érico Vital Brasil.RJ: Zahar, 2000; ORTA, Teresa Margarida da Silva e. Aventuras de Diófanes. Edição crítica de Maria de Santa Cruz. Lisboa: Caminho, 2002.