N. 19 – Belém/PA - Novembro/Dezembro - 2014

A Pílula e as Mudanças na Vida das Mulheres

Fonte: htexpoartsmolinero.blogs
http://expoartsmolinero.blogspot.com/

Maria Luzia Miranda Álvares


Os estudos acadêmicos, ao abordarem a questão das grandes mudanças na vida das mulheres, fazem o recorte histórico a partir da década de 1960, considerando várias  transformações que modificaram a sociedade global, nos costumes e nas relações sociais.

Nesse contexto, particularmente as relações de gênero - ou seja, o olhar sobre o comportamento de mulheres e homens -, processaram-se com a chamada “segunda onda feminista” (a primeira se deu com a luta pelo direito do voto, no século XIX, ou a onda sufragista), quando as mulheres passaram a requerer uma série de direitos, nas diversas áreas onde identificavam a vivência desigual com os parceiros.

Entre esses direitos reivindicados pelas mulheres, situa-se o de autonomia em relação ao próprio corpo e a liberdade sexual. E desde então, essa bandeira de luta considerada radical - e expressa no slogan Women's Liberation (“Liberação das Mulheres”), usado inicialmente nos EUA, em 1964 - passou a ditar as mobilizações feministas contra tudo que impedia as mulheres de disporem plenamente de igualdade e de liberdade. Esse objetivo consolidou-se, entre outros, no livro A Mística Feminina (1963), de Betty Friedan, e em um ato público das feministas norte-americanas, caracterizado pela queima dos soutiens – embora esse evento significasse o desejo das mulheres de serem vistas pela competência demonstrada em todas as áreas de conhecimento, ele, ainda hoje, é interpretado como demanda pela liberação sexual ou sexo livre.

No decorrer de toda essa movimentação articulada, e em meio às mudanças que estavam ocorrendo em nível global (guerras, costumes, novas tecnologias, diversidade cultural, priorização dos direitos humanos etc.), o invento da pílula anticoncepcional revolucionou a vida das mulheres, tanto no espaço privado quanto no público, garantindo-lhes desde a gravidez planejada à qualificação profissional específica ou em áreas de predominância masculina. Assim, de um modo geral, a pílula, se não eliminou a dupla jornada de trabalho, pelo menos lhes possibilitou equilibrar o número de filhos, equacionar as dificuldades e dimensionar o tempo das tarefas em favor de algum lazer ou de atividades prazerosas.

Entretanto, esses avanços não foram tão pacíficos para as mulheres, pois tal comportamento era/é julgado como “vicio”, egoísmo e outros “pecados” desarticuladores do direito de transitarem livremente e decidirem a própria vida. Além desses interditos e cobranças impostas pelas instituições sociais (igreja, família, sociedade, cultura etc.) em torno do “papel feminino,” as mulheres internalizaram uma restrição psicológica muito forte em razão de serem consideradas “avançadas” ou porque romperam com a tradição da procriação: a culpa de não quererem ter muitos filhos; de não serem supermães; de infringirem as “normas sociais” não cumprindo os papéis tradicionais. Ou seja: procriar não era/é mais natural; era/é uma opção.

Como se vê, a “era da pílula” pode apresentar enredos diferentes, pois, cada mulher de classe social e etnia distintas viveu um drama particular (culpas, medos, discriminação etc.) nas rupturas que empreendeu para fugir, principalmente, do acúmulo de trabalho em casa. É certo que tudo isso não representava aversão à maternidade, mas subversão contra um destino traçado antes mesmo de ela nascer.

Maria Luzia Miranda Álvares é Doutora em Ciência Política e Coordenadora do GEPEM.
Texto extraído de entrevista concedida pela autora ao jornal “O Liberal”. Belém- Pará- Brasil.