N. 19 – Belém/PA - Novembro/Dezembro - 2014

Mulheres na Política e a Misoginia

Maria Luzia Miranda Álvares

 

A onda de estereótipos instalada sobre as mulheres que se candidatam e concorrem em eleições, seja em âmbito formal ou não, tem sido devastadora.

Nos estudos que tenho feito sobre este assunto, as autoras que se dedicam a essas matérias mostram o tom censor dos que não aceitam a presença feminina no cenário político e apontam reflexões formuladas em torno dessas versões. O aspecto mais evidente é o de certos vocábulos aplicados para criticar representantes deste gênero que se apresentam para competir, principalmente em cargos dificilmente reconhecidos como de competência feminina. E os termos são lançados para desqualificá-las, são vistos, pela maioria das pessoas, da população ou do eleitorado, como fazendo parte do jogo político-partidário que se estabelece nesses pleitos, na escolha formal mais enfaticamente para um cargo majoritário, ou num posto informal, para o desempenho de uma coordenação ou presidência de um determinado órgão ou associação.

Há alguns anos participei da formação de um movimento de mulheres pescadoras em certa cidade paraense em que havia uma Colônia e regularidade de comando masculino nas eleições dessa categoria. Já organizadas e filiadas ao seu órgão de classe, as pescadoras apresentaram o nome de uma de suas associadas para competir ao cargo de presidente da Colônia, em certa eleição deste órgão. Os obstáculos foram intensos para que elas não participassem do evento. Primeiramente houve tentativa de exclusão do nome apresentado considerando que a associação não tinha os requisitos necessários para a competição. A apresentação dos estatutos e toda a formalidade exigida para a ocasião venceu a pretensão dos líderes da colônia e as mulheres inscreveram sua chapa. A argumentação de que não sabiam administrar selava o veredicto. A chapa encabeçada pela associada não foi exitosa. Sistematicamente elas têm apresentado candidatas a esse cargo, mas somente agora, segundo relato de uma das associadas, devem vencer a eleição.

As candidatas à presidência da república, nesta eleição, não foram poupadas de constrangimentos pelo tom de críticas ofensivas e emblemas de misoginia que são revelados no embate público. Antes mesmo, na abertura da Copa do Mundo, em junho deste ano, uma ala de torcedores levantou a voz numa locução marcada com palavras de sentido pejorativo para agredir a Presidente da República. Nessa agressão não estava somente a visibilidade da ofensiva de seus opositores partidários pelo cargo ocupado, mas infiltrado notam-se acepções que desvirtuam a dignidade da pessoa que está no poder pelo voto. Neste caso, a crítica a essa agressão, levou em conta mais a ofensa à autoridade da representante do país, entretanto, subjacente, se encontrava a aversão ao feminino. À consideração da primeira mulher a assumir o poder máximo de um país em cuja competição se observam mais duas ou três outras mulheres, a demanda por esse tipo de cargo será cada vez mais evitado e o acúmulo de interesse deste gênero, por ele, tenderá a encolher. Kunovich & Paxton (2005) observam: “Enquanto as mulheres fizeram progressos notáveis no domínio da educação superior e de profissões tradicionalmente masculinas, a esfera política continua a ser uma arena em que elas ainda não obtiveram comparativamente visível status. Atitudes preconceituosas são custos eleitorais pensados pelas mulheres bem mais do que qualquer outro recurso necessário.

Os epítetos misóginos contra as candidatas têm sido recorrentes neste período de campanha. A avaliação dessa aversão tem estado presente nas redes sociais, mas nem sempre os/as que estão submetidos ao calor competitivo partidário se tocam da aplicação subjacente que fazem sobre a desvalorização feminina. A naturalização clássica sobre os chamados “papéis” femininos e masculinos subjaz no imaginário social e nesses momentos repercutem num tom vazado de “partidário”. Mas a representação desses papéis sempre foi uma demanda pública pelo comportamento “certo” e “errado” entre os gêneros e em especial, das mulheres. E àquelas que fogem à regra são culpabilizadas.

Para a historiadora Joan Scott, “o gênero é, portanto, um meio de decodificar o sentido das relações de poder” expresso na hierarquia que transita secularmente entre os sexos fazendo com que emirja a “compreensão sobre as relações complexas entre diversas formas de interação humana” (Scott, p.23). Essa interação é contributiva da argumentação da autora ao tratar das representações de poder. Diz Scott (idem, ibidem): “As mudanças na organização das relações sociais correspondem sempre à mudança nas representações de poder, mas a direção da mudança não segue necessariamente um sentido único”.

Por que a centralidade dessa historiadora no conceito de gênero? Trata-se de considera-lo em uma dimensão decisiva na organização hierárquica da sociedade que está baseada na naturalização da incapacidade feminina para a vida pública e política.

Trazendo esse conceito para a cena atual da competição política, com as evidências de que o tom pejorativo às candidatas se serve de versões já instituídas nas representações sociais considerando que esta ocorrência nada mais é do que um embate político-partidário não se percebe que são referenciais de cunho altamente misógino assumidos por homens e mulheres que têm determinada preferência partidária.

Contudo, há visões que apontam para a identificação dessa ambiguidade. Posts & outras referencias circulando em blogs e em redes sociais mostram, de forma mais coloquial, o que propus nesta avaliação reconhecendo que não estou só.

De um  email de Yone M. Kegler à jornalista Hildegarde Angel (http://www.hildegardangel.com.br/) extrai somente um parágrafo: (...) : “Debocham de Dilma, como “gorda ridícula”, o tempo todo, mas dizem ao amigo (a) importante, na mesma situação, que ele (a) está só um “pouquinho acima do peso”.

Luanna Tomaz (docente da UFPA) em seu post (FB), diz: “Independente de qualquer partido ganhar as eleições, sei que a misoginia saiu vitoriosa. A Dilma foi chamada de gorda, insinuaram que era lésbica porque é divorciada (...), riram da queda de pressão dela (...). Dilma e Luciana foram chamadas de levianas, o coque de Marina ganhou mais atenção do que as propostas dela. (...) Tantos obstáculos que as mulheres precisam superar para chegar ao poder que não estranha termos baixo percentual de vagas da câmara, por exemplo”.

Texto originalmente publicado no Jornal O Liberal ( Belém/PA, 24/10/2014). 
Maria Luzia Miranda Álvares é Doutora em Ciência Política, Professora Associada 3- Instituto de Filosofia e Ciências Humanas/ Faculdade de Ciências Sociais(UFPA), Coordenadora do GEPEM/UFPA. Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.