N. 19 – Belém/PA - Novembro/Dezembro - 2014

Theda Bara e as Outras: divas, famosas, fatais e... esquecidas

 

Silvio Cosco

Em 1895, em Paris, os irmãos Lumière realizam a primeira projeção cinematográfica da história. O primeiro filme foi La Sortie de l’usines Lumière à Lyon, cerca de 46 segundos mostrando trabalhadores deixando a fábrica. A grande maioria são mulheres. Poderíamos dizer que a história do cinema começa dando uma representação realista e respeitosa das mulheres da época: umas trabalhadoras. O cinema mostra-se como uma invenção e sua função é exibir essa novidade. No entanto, na segunda década do século XX, quando a técnica é aperfeiçoada e o cinema descobre o potencial narrativo, começa-se a contar histórias com personagens femininas completamente negativas. E confinam-se as atrizes, e com elas, as mulheres que representam no tópico da femme fatal. É um sistema “divístico” que leva ao sucesso e à popularidade muitas atrizes, contudo, presas em papéis de mulheres ambiciosas, cruéis, destruidoras de famílias etc.

Quase todos os críticos e historiadores, geralmente, consideram a primeira femme fatal cinematográfica, a estadunidense Theda Bara, nome artístico de Theodosia Burr Goodman. Theda já possuía alguma inclinação para o cenário, e quando chegou em Los Angeles teve a sua grande chance no cinema: o filme A fool there was, dirigido por Frank Powell, no qual interpretava uma mulher malvada que seduzia um bom pai de família e o leva à loucura: foi a primeira estrela “fabricada” por um estúdio de cinema, a Fox, e foi um sucesso.

Theda, em seus personagens, reuniu os temas fundadores do tópico da femme fatal, logo presentes noutras atrizes. A imoralidade corruptora: ela corrompe as mentes das pessoas boas, decentes, respeitosas, como se fosse um demônio tentador. A codicia: essa imoralidade não aponta para os pobres, mas para os ricos. A falta total de sentimentos: a femme fatal não tem empatia nenhuma com os outros personagens e, como tal, não se importa minimamente causar um drama familiar, trazer dor e desespero. O erotismo: essas histórias são embebidas em uma sexualidade que não é consumida, obviamente, mas permeia todos os momentos.

Nestes anos, Theda representou o papel da malvada em muitos filmes, mas tentou sair do tópico, interpretando heroínas positivas em um par de filmes e também um Romeu e Julieta. No entanto, teve demais sucesso como “mulher devassa” para desenvolver uma carreira mais versátil. Assim, em 1919, a Fox demitiu-a porque não queria seguir com os filmes deste tipo e estava à procura de outra atriz. Dois anos depois, ela casou–se com o diretor Charles Brabin e, gradualmente, retirou-se, tentando voltar nos anos 30 ao teatro e, nos 50, fazer um filme biográfico sobre sua vida. Tentativas frustradas, também, em razão de o marido não concordar com esse objetivo (e era um cineasta!). Theda morreu aos 69 de câncer abdominal. Somente após, é que começaram as homenagens: a estrela na Walk of fame de Hollywood, retrospectivas, publicações ...

O destino de Theda foi semelhante ao de muitas outras. A lista de grandes atrizes do cinema mudo, atuando, aproximadamente entre 1915 e 1935, é muito ampla. São mulheres condenadas a este tipo de papéis (dificilmente interpretam outros, não as deixavam) e desaparecem sistematicamente da indústria do cinema com o advento do sonoro (apresentado em 1929 e consolidado nos 30-40). Se olharmos para as datas do primeiro e último filme dessas divas, podemos pôr em relevo a brevidade das carreiras: Pina Menichelli (1913-1925); Lyda Borelli (1913-1918); Francesca Bertini (1904-1928); Theda Bara (1914-1926); Pola Negri (1914-1929, 60 filmes; 12, em 1932-1964); Margarita Fischer (1910-1928); Nita Naldi (1920-1927); Helen Gardner (1910-1924); Olga Petrova (1914-1918); Louise Brooks (1926-1938); Stacia Napierkowska (1908-1926); Asta Nielsen (1910-1927).

Uma carreira artística contida em 10-15 anos, e frenada por diferentes razões: a Menichelli falou do “dever de esquecer”, visto considerar uma mancha o feito de ter encarnado, em diferentes ocasiões, esses temas malditos; a cruel incompatibilidade entre a vida conjugal e profissional imposta pela sociedade, e pelo preconceito alimentado também pelos tipos de papéis desempenhados por essas mulheres. Como um objeto de marketing que já não se vende, quando um produtor se focou noutros tipos de papéis quase nunca quis recorrer às mesmas atrizes que interpretaram as malvadas. Tão pouco foi o respeito que mostraram pelo extraordinário talento dessas artistas. O mesmo aconteceu com a vinda do sonoro: apostaram preferencialmente em artistas mais novas condenando ao esquecimento as atrizes afastadas, e confinadas no silêncio pela mesma indústria que lhes tinha dado popularidade.

Será que todas tiveram o mesmo destino? Greta Garbo e Marlene Dietrich foram duas exceções na capacidade de superar o obstáculo da passagem do mudo ao sonoro. Se calhar, por a forte personalidade e uma gestão prudente e discreta da vida privada que não permitiu que os laços conjugais (nem os preconceitos da sociedade) frenassem o imenso talento de ambas.

Silvio Cosco é membro do Grupo de Investigação “Escritoras e Escrituras” (Universidade de Sevilha/Espanha). Graduado em Literatura, Música e Espectáculo, com Especialização em Editoria e Escritura (Universidade “Sapienza” de Roma). Doutor pela Universidade de Sevilha com ênfase em estudos de gênero, história das mulheres, estereótipos femininos nas diferentes artes. E-mail: Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.

Foto
: Theda Bara (Copyright Expired, c. de 1910).