N. 19 – Belém/PA - Novembro/Dezembro - 2014

Maria Martins: artista surrealista brasileira


Lilian Adriane Ribeiro

Depois do Boom de Frida Kahlo vivido no mundo inteiro, em razão do centenário de seu nascimento (06/07/2007) e das homenagens aos 60 anos de sua morte ( 13/07/2014), há também que se celebrar María de Lourdes Alves Barbosa Martins, nascida em  07/11/1894 e considerada pela crítica a única artista realmente surrealista do Brasil.

Maria Martins transportou a cultura popular brasileira, híbrida e marginalizada, ao cenário internacional. No início da carreira profissional, entre 1930- 1939, projetou sua arte   em diferentes lugares, a exemplo, Quito, Copenhague, Bruxelas. Em Tokio,  aprendeu a modelar terracota, mármore e cera. E na França, começou a trabalhar com madeira.

Na América do Norte,  a surrealista se tornou famosa, em Nova York e Washington. Nesta fase, começa a utilizar o bronze, sendo este material o principal suporte de sua obra.  A este tempo, também realiza as primeiras exposições de esculturas: no Philadelfia Museum of Art, quatro; no Corcoran Art Gallery,  dezoito;  e no Valentine Gallery, vinte e uma. Essas peças surrealistas apresentadas continham temas religiosos e da cultura brasileira. Até então, a obra de Maria Martins não tinha estilo definido, predominando figuras extraídas das lendas amazônicas  evocando  velado  erotismo entre os seres: Yara, Iemanjá, Cobra Grande, Boto.

Na década de 1940, morando em Paris e já trabalhando com o bronze, ela participa de exposição na Galerie René Drouin e se dedica a esculturas mostrando o corpo feminino, sendo a obra O Impossível a mais importante deste período e em homenagem a  Duchamp. Também nesta época, com a mesma temática, cria as esculturas: Aranha e La Femme; a Perdu Son Ombre; e Huitième Voile - esta inspirada no corpo de sua filha Anna Maria.

Após longo período de residência no exterior, e no qual transcorreu sua formação e maturidade profissional, ela regressou ao Brasil na década de 1950. Entretanto, sua expressão surrealista foi marginalizada no meio artístico brasileiro, dominado pelas questões modernistas e pelo concretismo, sendo Maria Martins acusada de abstracionista, maldita e rebelde por desorganizar o conhecido e perverter a ordem estética. Além disso, a persistência no tema erótico-sexual provocou que suas peças fossem consideradas  pornográficas.

No Brasil,  apesar das restrições imposta pela crítica,  ela participou de várias Bienais e ganhou alguns prêmios, dos quais o de melhor artista com a obra A soma dos nossos dias (1955). No final da década de 50, aos 65 anos, cria a escultura de bronze Ritmo dos Ritmos, medindo 5 metros, a qual  hoje se encontra no Palacio da Alvorada, em Brasília. A última produção, Canto da noite, é uma medusa imensa e estranha. Em 1970, o arquiteto modernista Oscar Niemayer solicitou a Maria Martins  uma escultura para a Catedral de Brasília, mas esta peça ficou inacabada em razão de a artista estar bastante doente.

María de Lourdes Alves Barbosa Martins faleceu no dia 27 de março de 1973, com 78 anos, deixando  obras  divulgadas  e premiadas no Brasil e no exterior.

Lilian Adriane Ribeiro é Doutora em Literatura Espanhola (Universidade de Sevilla/Espanha). Pesquisadora associada ao Grupo de Estudos e Pesquisas “Eneida de Moraes sobre Mulher e Relações de Gênero (GEPEM/UFPA) e pesquisadora do  Grupo Escritoras y Escrituras – (Universidad de Sevilla). E-mail: Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.