N. 19 – Belém/PA - Novembro/Dezembro - 2014

Uma Linda Mulher

Maria Angela D´Incao

Foi uma linda mulher de cabelos negros ondulados e sempre cortados com movimento. Sua elegância física e de finos trajes serviram-me e servem ainda de inspiração para a minha constituição feminina.

Além de sua beleza e elegância, minha mãe era amorosa e guardei para sempre o som de sua voz contando-me histórias, quando me deitava com a cabeça em seu colo. Suas mãos, em minha cabeça, eram suaves e delicadas, ainda que grandes.

Seu perfume, ainda me lembro, era doce e ela gostava de usar o Chanel nº 5, e os cremes da Elizabeth Arden – vendidos na Farmácia Popular, para o que  meu pai reclamava dos altos custos dessas extravagâncias em nosso sertão venceslauense.  Mas, sempre senti que meu pai, na verdade, gostava desse refinamento de sua mulher.

Era professora e com ela – também com meu pai, que tinha alma doce e serena e com grande sentido de justiça – aprendi muito e muito sobre as pessoas humildes e o quanto se deve ajudar aqueles que necessitam. Nossa casa, sempre serviu refeições àqueles  que por lá passavam em busca de algo para comer. Ainda que a nossa vida familiar não fosse regada com muitos recursos, sempre houve ajuda aos necessitados.

Era elegante com todos. Aprendi com a ética com que ela tratava as funcionárias de nossa casa, seus amigos e colegas de profissão.

Ela cuidava da elegância do filho das filhas sempre, e me lembro de meu primeiro vestido de baile – aos 13 anos – que escandalizou meu pai. Era amarelo claro, tomara que caia, com ampla saia godê longa, de alças e com uma faixa preta presa ao decote, terminando com um laço às costas.

Senti-me linda,  uma bela menina para sempre marcada pelo bom gosto de minha mãe.

Era sempre cheia de paz a nossa vivência com ela. Enquanto escrevia ou tirava a sua religiosa sesta depois do almoço, aproveitávamos para fazer o que era proibido: ir à mina, por exemplo, ou passeios nas matas que ainda existiam em nossa cidade, sem a permissão de nosso pai.

Quando ela perdia o controle, dizia: – Vou falar para seu pai. Não acreditávamos muito, mas... Diminuíamos nossas desobediências.

Foi ela que nos incentivou a estudar além da escola normal. Não se conformou com a falta de estudos universitários para os filhos. Lutou, junto com meu pai, para essa realização para as filhas também.

Assim como havia se casado por amor, esperava que seu filho e filhas o fizessem também. Respeitou nossas escolhas, ainda que não sentisse, em alguns casos, que a escolha era adequada. Achava seus filhos especiais e imaginava nossas escolhas dentro desse padrão.

É com orgulho que nossa casa me habita ainda. As janelas sempre com delicadas cortinas, o adorável aroma que vem dela, o brilho do chão, enternece-me sempre. Sobretudo o calor e a paz experimentados, quando chegados em minhas diferentes idades, em busca de compreensão, estão marcados indelevelmente em mim. Ali sempre tive paz e amor.

A minha mãe é uma referência dentro de mim: seu carinho, beleza de alma e modo de ser emergem em detalhes que surgem inesperadamente em minha vivência, hoje sem ela.

Breve Contextualização

Arthuzina de Oliveira D’Incao nasceu em Taubaté a cinco de junho de 1917. Filha de comerciantes mineiros cultos, estudou na Escola Normal de Taubaté, formando-se em 1935.

No ano seguinte escolheu a cadeira de professora primária na Serraria Aimoré, no município de Presidente Venceslau. Chegou à região da Alta Sorocabana em 1936. Tinha 18 anos de idade e consta, em suas memórias, a descrição do mapa pictórico do Estado de São Paulo, onde a figura que representava Presidente Venceslau era a de um índio ao lado de um bandeirante armado próximos a uma fogueira e uma onça espreitando, por entre a mata.

Órfã de pai e mãe por volta dos 13 anos de idade, Arthuzina viveu com a família de seu irmão no Rio de Janeiro e, em seguida, com a família de sua irmã mais velha, em Taubaté, até o momento de seu primeiro trabalho, em Presidente Venceslau.

Arthuzina de Oliveira Ribeiro casou-se em 19 de março de 1938 com Mânlio D’lncao, filho de imigrantes italianos já residentes na região desde 1922. De seu casamento, teve quatro filhos (José Arthur, Maria Conceição, Maria Ângela e Maria da Penha).

Residiu na cidade de Presidente Venceslau até ao final de sua vida em 30 de setembro de 1997.

Sua vida profissional transcorreu, por muitos anos, na função de professora primária, em escolas rurais e, mais tarde, já na cidade, no então Grupo Escolar Dr. Álvaro Coelho. Assumiu, na década de 60, a direção do Curso Primário Anexo (IEE Antônio Marinho de Carvalho Filho) e posteriormente, na década de 70, tornou-se Diretora do 1º. Grau.

Sua atividade literária transitou por páginas de jornal local, regional e estadual, revistas e livros. Da contribuição para os jornais locais, algumas crônicas e contos foram reunidos, posteriormente, na obra Fragmentos ( 1982, Editora Soma, SP).

Publicou contos na Revista Cruzeiro, dividindo, por algum tempo com Raquel de Queiroz a última página (1950- 1965), também colaborou na Revista Alterosa. Publicou o romance infanto-juvenil Mistérios do Povoado( 1985, IBRASA, SP). Entre 1970/80, publicou contos na Folhinha de São Paulo. Deixou várias obras inéditas.

Maria Angela D’incao é Pós-Doutora pela Universidade de Oxford – Inglaterra. É professora na UNESP, pesquisadora na área de Sociologia, com ênfase  em estudos de camponeses e família rural e urbana, na região amazônica. Pesquisadora filiada ao GEPEM/UFPA.

Foto: Arthuzina de Oliveira D Incao ( Acervo: Maria Angela D’incao).