N. 19 – Belém/PA - Novembro/Dezembro - 2014

Entrevista: Denise Machado Cardoso

Reprodução de Depoimento Publicado na Edição 4 da  Revista Científica Gênero na Amazônia,  Concedido por  Denise Machado Cardoso, Consultora Ad hoc do GEPEM no Programa Pró-Equidade de Gênero/SPM/PR.

RGA -Início de suas atividades na UFPA (ou antes- um pouco de sua vida acadêmica).

DMC- Entrei na UFPA na condição de professora de Antropologia, em 1994.  Antes disso, era professora de História, na Escola Marista Nossa Senhora e Nazaré e em escolas públicas de Ensino Médio (Edgar Pinheiro Porto e Deodoro de Mendonça). Durante a graduação em História, trabalhava em escola particular para crianças na chamada Pré-escola, mas parei devido à incompatibilidade de horários e atividades desenvolvidas na UFPA, pois cursava, também, Administração e Língua Francesa.

RGA- Na área do ensino de Antropologia, quando e como você iniciou a desenvolver os estudos sobre a questão da mulher e as teorias de gênero?

DMC - Desde o ensino médio, eu tinha interesse pelo tema e ao ingressar na graduação me deparei com inúmeras obras sobre gênero na Biblioteca Central da UFPA. Foi  uma grata surpresa saber que se tratava o tema com seriedade acadêmica. Até então, conhecia apenas artigos de revistas femininas.

No mesmo período, houve a realização de dois Seminários sobre a Mulher. As palestrantes eram pesquisadoras de renome e os temas tratados eram inovadores para minhas perspectivas. Esses eventos foram determinantes para minha escolha preferencial para os estudos sobre relações de gênero.

No mestrado em Antropologia Social e, anteriormente, na Especialização em Teoria Antropológica, fui apresentada às obras de antropólogas e antropólogos que desenvolveram estudos com essa problemática. Tinha interesse em realizar pesquisa sobre gênero e sexualidade, mas, devido a uma série de fatores, passei a desenvolver pesquisa sobre gênero e meio ambiente.

RGA - E sua inserção em outros grupos de estudos e no GEPEM/UFPA?

DMC-Desde o início do mestrado, entrei em contato com o GEPEM ao consultar sua coordenadora (profa. Luzia Álvares) sobre meu projeto de pesquisa. Apesar de não tê-lo desenvolvido, ficou a “porta aberta” para novas incursões nesse tema e grupo de pesquisa. Em tempos recentes, ingressei também no Grupo de Estudos Nosmulheres que dá ênfase ao recorte gênero e raça; e no Grupo de Estudos sobre Populações Indígenas (GEPI), no qual  atuo com maior ênfase na temática da educação indígena.

RGA- Quais as principais linhas do estudo de gênero que você tem desenvolvido até hoje?

DMC - A educação, a questão socioambiental, sexualidade e participação política são temas que estão presentes de modo recorrente em projetos que desenvolvo nos Grupos de Estudo em que participo.

RGA - Principais correntes que você tem estudado nessa teoria?

DMC - A escola americana de Antropologia, na pessoa de Margareth Mead em determinado contexto são de relevância ímpar. Na abordagem sobre Antropologia e questões socioambientais, também são relevantes os estudos de outros pesquisadores e pesquisadoras da tradição americana. Nas questões de gênero, há no Brasil uma série de estudos relevantes que envolvem a sexualidade, tanto na Antropologia quanto na Psicologia.

RGA - Você considera importante a inserção desse conceito nos estudos atuais, ao tratar de diversidade social (e marcadores sociais) e a conexão com as demais áreas das ciências de um modo geral?

DMC - Sem dúvida, a inserção de gênero permite que as realidades sociais sejam analisadas de modo mais apropriado, na medida em que vislumbram uma aproximação das pessoas em sua plenitude. Em tempos de identidades e seus vários marcadores sociais, problematizar considerando  gênero, cor/raça/etnia, classe, religiosidade, dentre outros, permite interpretações e ações menos equivocadas.

RGA-Quais os principais autores que você utiliza nesses estudos?

DMC- É uma tarefa difícil indicar autores e autoras importantes nos estudos em que realizo, mas me arrisco a apontar alguns deles como, por exemplo: Judith Buttler, Margareth Mead, Ligia Simonian, Maria Angélica Motta-Maués, Joan Scott, Sérgio Carrara, Paulo Roberto Ceccarelli, Michel Foucault, Pippa Norris. Embora haja uma infinidade de autores e autoras de destaque, essas são algumas referências relevantes. Nos encontros acadêmicos, se percebe que há gerações de pesquisadores(as) que englobam a temática gênero, e isto se reflete nas produções.

RGA- Considerando sua contribuição na pesquisa no norte, e pode-se dizer brasileira, sobre gênero e a área antropológica, quais os trabalhos que você considera importantes nas discussões sobre a diversidade social?

DMC--Os estudos realizados por Maria Angélica Motta-Maués e Edna Alencar são referenciais para quem investiga a presença da mulher na atividade pesqueira; Mônica Conrado desenvolve pesquisa sobre a diversidade racial e sexual de modo instigante e inovador; Luzia Álvares em seus estudos sobre participação política feminina em várias realidades e contextos; Telma Amaral, Adelma Pimentel e tantas outras pesquisadoras que abarcam a temática gênero e suas interfaces com marcadores sociais diversos são exemplos desses estudos.

RGA- No seu ponto de vista, há avanços da mudança de olhar à nova situação da orientação sexual de brasileiros/as?

DMC- Os movimentos sociais provocaram mudanças sociais significativas com base em   suas demandas e ações em rede. É inegável que os estudos realizados por Grupos de Estudos contribuíram na compreensão, reflexões e análises. Contudo, o mérito dos movimentos sociais precisa ser reconhecido como propulsor desse novo olhar.

Denise Machado Cardoso é  Doutora em Desenvolvimento Socioambiental (Pós-Graduação do Trópico Úmido PDTU/ NAEA/UFPA); Mestre em Antropologia Social (UFPA) e graduada em História (UFPA). Pesquisadora do Laboratório de Antropologia da Universidade Federal do Pará e membro do Comitê de Ética em Pesquisa da UFPA. Coordenadora o Programa de Pós-graduação em Sociologia e Antropologia e do Grupo de Pesquisa em Antropologia Visual e da Imagem (Visagem). É vice-coordenadora do Grupo de pesquisa NOSMULHERES. Consultora Ad Hoc no Programa Pró-Equidade de Gênero da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres. É membro do GEPEM, GEPI e Pet/GT/CS. Tem experiência na área de Antropologia, com ênfase em Antropologia Rural, atuando principalmente nos seguintes temas: gênero, educação, antropologia política, ciências sociais e ambientais. E-mail: Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.