N. 19 – Belém/PA - Novembro/Dezembro - 2014

Valdiza Alencar de Souza: a mulher do sindicato

Débora Souza do Nascimento

Valdiza Alencar de Souza: a mulher do sindicato é uma  dissertação de Mestrado em Letras que defendi na Universidade Federal do Acre  (UFAC). Esse estudo resultou de uma cuidadosa pesquisa envolvendo literatura oral, política e análise contextualizada da condição das mulheres no Acre, nas décadas de 1970,1980.

Orientada pela Dra. Margarete Edul Prado de Souza Lopes(UFAC),  adotei como viés teórico os estudos de gênero e a crítica feminista, intencionando recuperar a história de vida de Valdiza Alencar de Souza, uma seringalista que precedeu Chico Mendes e que foi a pioneira na articulação do movimento de resistência dos seringueiros em Brasiléia - fato que repercutiu e influenciou militantes em todo o Estado do Acre.  Com atitudes feministas e avançadas para seu tempo, Valdiza apresentava um caráter determinado e forte, independente, autoritária, politizada e consciente dos direitos ao bem-estar dos menos favorecidos iguais a ela.  Suas atitudes e comportamentos romperam com os padrões de gêneros tradicionais para as mulheres seringueiras, no Acre.

Ao reconfigurar a trajetória de vida e militância de Valdiza, o estudo também contribuiu para uma reflexão sobre os estereótipos de gênero, renovados e readaptados a partir da década de 1970, considerando-se: a construção da identidade feminina no Acre, os semióforos[1] da acreanidade e sua  carga simbólica e, principalmente, o lugar que personagens femininas de destaque, raras na história acreana, como Valdiza Alencar, ocuparam em tal processo. Neste sentido, vale ressaltar que os fundamentos da História do Acre e seus discursos ficcionais fazem  parte do discurso dos donos de seringais, políticos, missionários, padres e viajantes que pela região passaram. Em consequência disso,  a voz dos índios, dos seringueiros, das mulheres e dos negros foi silenciada nos estudos clássicos e tradicionais, construídos dentro da ideologia colonial e patriarcal que excluía a voz de outras culturas consideradas inferiores.

Débora Souza do Nascimento é graduada em História, Mestre em Letras(UFAC) e Professora da Universidade Federal do Acre(UFAC). Atualmente é supervisora do curso de especialização UNIAFRO - Políticas de Promoção, convênio   MEC / UFAC / Secretaria Estadual de Educação do Acre.

1- De acordo com Marilena Chauí ( 2009), Semióforo são elementos carregados de signos indicativos de acontecimentos em uma sociedade e carregado de valores. Pode ser uma nação, um deus, um herói, um acontecimento etc. Dos semióforos, não cessam de surgir efeitos de significação.