N. 19 – Belém/PA - Novembro/Dezembro - 2014

Conservação Ambiental e Participação Política Feminina

Ana Cristina Soares

As motivações da minha tese de doutoramento intitulada Conservação Ambiental e Participação Política Feminina: estudo em comunidades negras de Macapá-AP, orientada pela Dra. Maria Cristina Maneschy e defendida na Universidade Federal do Pará(2013), originaram-se no período de graduação em Ciências Sociais, quando fui contemplada como uma bolsa de Iniciação Científica/PIPES, junto ao Projeto de Pesquisa e Extensão: "Cidadania Participação Política e Gênero - Pará de 1932 a 1998"[1], no qual desenvolvi o subprojeto "O Perfil das Mulheres Eleitas às Câmaras Municipais da Mesorregião Belém"- temática que influenciou meu trabalho de conclusão de Curso (TCC).

No mestrado,  continuei esta reflexão em um estudo de caso no Município de Muaná/PA, objetivando investigar o que motivava a participação política das mulheres em sociedades tradicionais amazônicas.

Estes caminhos acadêmicos percorridos  despertaram meu interesse para  estudar a participação política feminina na Amazônia, especificamente em  Macapá/AP. Neste sentido, visei identificar como as mulheres negras, em comunidades historicamente marginalizadas do ponto de vista econômico e político, estão agindo coletivamente em relação à conservação dos recursos ambientais. Além disso, também examinei  quais  mecanismos são usados pelo movimento de mulheres para o empoderamento político das associadas, considerando que estão envolvidas em um processo de reelaboração de suas identidades étnica e de gênero e, portanto, de questionamento dos papéis sociais tradicionais que as representam socialmente.

A hipótese que subsidiou a investigação sustenta-se na proposição de que as mulheres de comunidades negras e rurais de Macapá estão se organizando e se mobilizando politicamente para a valorização de suas identidades pessoal e coletiva de gênero e raça, desenvolvendo ações coletivas que interferem no desempenho de seus papéis-chave (mãe e esposa), assim como naqueles relacionados à conservação ambiental e ao uso racional e sustentável da biodiversidade. Neste sentido, vale ressaltar que as formas de conservação ambiental nessas comunidades encontram-se imersas nas culturas locais como parte da identidade política de gênero e raça que vêm sendo reelaboradas no bojo das mudanças sociais e, mais particularmente, da influência de movimentos socioambientais e de gênero.

As conclusões da pesquisa evidenciaram a existência de  relevantes aspectos  que motivam atualmente a participação política da mulher macapaense, quais sejam: ampliação de espaços políticos via movimentos sociais; criação de setores populares organizados e representados por  mulheres, negros e ambientalistas, com efetiva  participação no poder macapaense, nas esferas públicas, elaborando o imaginário de que a mulher e o negro são igualmente uma força respeitável no mundo da política de Macapá. Para esta mobilização, muito tem contribuído o Instituto de Mulheres Negras do Amapá (IMENA)  por meio da  promoção de projetos que favorecem a autonomia de lideranças nas comunidades rurais. Essa  articulação objetiva, entre outros: combater o preconceito e a discriminação racial e sexual;  a inserção das mulheres negras no campo da participação política e em defesa do meio ambiente amazônico.

Ana Cristina Soares possui  bacharelado em Ciências Sociais (UFPA), mestrado em Sociologia Geral (UFPA) e doutorado em Ciências Sociais (UFPA). É professora efetiva da Universidade Federal do Amapá/Brasil e pesquisadora filiada ao GEPEM. Tem experiência na área de Ciência Política, com ênfase nos seguintes temas: mulher, mídias, cidadania, relações de gênero e educação.

Foto: sessão de defesa coordenada pela Dra. Maria Cristina Maneschy, orientadora da tese. No plano à direita, Ana Cristina Soares expondo o tema.

[1] Este Projeto foi vinculado ao Departamento de Ciência Política da UFPA e coordenado pela Professora e Pesquisadora Maria Luzia Álvares.