N. 19 – Belém/PA - Novembro/Dezembro - 2014

Porque sou toda Chiziane

Ana Patrícia Ferreira Rameiro

Foi em um contexto leve, de intensas trocas acadêmicas e literárias – às vezes quase distraídas – que ela chegou a minhas mãos. Um amigo moçambicano, também pesquisador de gênero e sociabilidades, trouxe até mim Paulina Chiziane. E mais que um encontro entre escritora e leitora, o chegar de Chiziane foi uma cintilação, um presente, um acontecimento histórico, uma dádiva, um modo de implantar novos sentidos. Essa coisa política, poética e transformadora que certos tipos de arte carregam.

Gostaria de não precisar mencionar a ausência eloquente de escritoras negras na nossa literatura visível e vendível (Dalcastagnè, 2012), bem como sobre o silêncio acerca da literatura africana (de modo geral) nas nossas escolas, universidades e encontros literários. Foi de Moçambique que ela veio. Chegou até mim depois de quatro séculos de domínio colonial português e mais vinte anos de guerra civil, acumulando ainda hoje alguns dos piores índices de desenvolvimento humano do planeta.

A propósito, Chiziane é a primeira mulher moçambicana a publicar livros e faz isso como se traduzisse em beleza e arte literária uma realidade dura, triste e perversa. Eu não posso nem supor essa mulher, apenas imagino e respeito imensamente. Mas a literatura é mesmo um túnel invisível por onde passeamos, em alta velocidade, por entre encontros de sensibilidades que dizem, eloquentes, sobre o quanto dois cantos do mundo podem se aproximar e se confundir.

A narrativa de Chiziane é daquelas que nos faz sentir saudades durante a leitura e nos deixa com remorso e culpa por precisar gastar horas com outras atividades que não digam respeito aos seus escritos. Niketche, título da obra a qual aqui me refiro, é um hino de liberdade feminina, aliás, de libertação, um processo dolorido, contraditório, cotidiano, desesperador e, em muitos casos, solitário.

Niketche trata da trajetória de Rami, a “primeira dama” de um polígamo, que por muitos anos ignorou esta condição. O livro parte das descobertas de Rami sobre as demais mulheres e famílias mantidas por seu marido Tony, e pela profusão de pensamentos, sentimentos e atitudes que estas descobertas causam na protagonista.

Niketche é um caminhar de Rami ao encontro de si mesma. Caminho de volta, catando os pedaços de vida que deixou pelo trajeto. Depois a caminhada é para frente, e inclui uma hostilidade inicial pelas outras quatro mulheres de Tony. Hostilidade que se transforma em agressões, mulheres engalfinhadas em delegacias, choros das muitas crianças de seu esposo, ameaças, dores e pensamentos, muitos pensamentos. Rami reflete sobre o que é ser mulher sem ter um homem ao lado, sobre os significados de ser a “primeira dama” e sobre a sua contribuição para que o marido saísse em busca de outras mulheres.

A partir de então, Rami decide ter aulas de amor. Encontra mulheres que se preparam desde o nascimento para servir sexual e domesticamente a seus homens. Tem aulas de culpa em conversas com seus familiares, em busca de orientação. Reflete contradições dolorosas que se situam no encontro entre a religião cristã/monogâmica do colonizador e as práticas milenares/poligâmicas locais. Em certa altura, Rami observa um casal de velhos no hospital. A senhora, com muito pesar, contava ao médico sobre a situação de saúde do marido. Ele definhava, mas abriu os olhos e respirou fundo, bradando que a esposa não dialogue com outro homem na sua frente porque isso é comportamento reservado a prostitutas ou mulheres sem marido.

Ela relembra a história de uma mulher, sua ascendente, que foi espancada e expulsa de casa por ter preparado mal, segundo o marido, uma moela de galinha. Essa mulher precisou atravessar uma mata fechada para chegar à casa de sua mãe, mas, no meio do caminho, foi devorada por uma fera selvagem. Morreu por uma moela de galinha, mas ninguém da família indigna-se com isso. A história é contada com tristeza, mas a moral tende a ser a advertência sobre a maneira certa de se cozer uma moela. Ela pensa ainda na história da princesa que desobedeceu ao esposo e de tanto questionar e discordar, terminou por ser aprisionada, pelos deuses, na Lua, a chorar e sofrer, por toda a eternidade.

Rami pensa em tudo que as mulheres menstruadas, grávidas ou que provocam abortos às escondidas podem expurgar. Mulher é sempre mal do mundo, apenas por existir, dizem as lendas em suas entrelinhas. Não devem chegar perto (tampouco interferir) de diálogos masculinos ou espaços públicos, e são culpadas até mesmo dos infortúnios da natureza. Homens são como rizomas, necessitam se espraiar, escorrer pelo mundo, conquistar, dominar – explicam as mais velhas às esposas de polígamos.  Homens, a propósito, não podem chegar perto dos fogões, pilões ou temperos, sob custo de colocarem a vida em risco ou desenvolverem males sexuais, castigo dos deuses.

Dentre suas muitas constatações sofridas, ela indagou se talvez os homens tenham criado a indumentária feminina, apertadas, com saltos altos, espartilhos, tudo que limite a locomoção é bem vindo, tudo que as faça sempre sentir culpadas é bem vindo. Rami pensa, vê e sofre muitas coisas. Ao mesmo tempo, age. Alia-se às demais esposas de seu marido. Inicialmente com objetivo de retirá-las da vida de Tony e retomar o casamento monogâmico anterior. Entretanto, os contornos de suas concepções sobre o mundo, os homens e as mulheres vão ganhando novos delineamentos, e seus propósitos se reorganizam, se confundem.

Rami se dá conta de seu lugar no mundo, lugar este que, em muitas circunstâncias, é exatamente o mesmo de todas aquelas outras mulheres: as demais esposas, as velhas que ensinam lendas machistas, suas filhas, sua mãe. Rami agora tem um amante. E quando o marido viaja para a França com sua sexta ou sétima mulher e forja, inadvertidamente, sua própria morte, ela sofre pela tradição, que exige um ritual violento e invasivo, mas admite sentir prazer ao ver o lugar do marido ser ocupado pelo cunhado (levirato).

Numa miríade de vindas, idas, medos, paradoxos, enfrentamentos de si e do mundo, Rami começa a vislumbrar sua autoestima, reconhecer-se, renascer em outro mundo, talhado por ela e pelos seus novos olhares. Investe em seu trabalho, em seu prazer e nas demais esposas de Tony. Todas agora trabalham, estudam e gostam de si. Tony, finalmente, transita livremente por todas elas, mas sente que algo está mudando.

Esta mudança é dolorida, árdua e quase insana, para todos. Mas as mulheres, na história de Chiziane, finalmente, puderam entender que mesmo que seja um parto dolorido, cheio de sangue e dores incômodas, a mudança fere ainda menos do que a permanência naquele estado anterior de dominação, de muitas vidas de esforços e entregas sem nenhum reconhecimento, existências disfarçadas de algum poder. Poder concedido apenas se elas permanecessem circunscritas ao permitido, “em seu devido lugar”: atrás dos grandes homens, soberanas apenas no espaço doméstico, educando crianças (educação contraditoriamente criticada e taxada de machista, num ciclo outra vez punitivo para as mulheres, no qual a transmissão de valores feita pela mãe é criticada como se fosse feita de maneira isolada), reproduzindo mitos misóginos ancestrais, como se isso as fizesse menos vítimas de uma sociedade de machismo subterrâneo, incrustado e arraigado em sua estrutura.

E é por falar lindamente sobre tudo isso em mais de trezentas páginas das quais pululam qualidade literária, crítica social, lágrimas, dores e esperanças que sou e serei sempre toda Paulina Chiziane. E é também por ela ser negra, africana, mulher e saber-se, sentir-se, ver-se inteira em sua condição, que toda a admiração e todos os hinos à Chiziane devem ecoar por muitos tempos e muitos mundos, para que jamais se percam histórias como essa, que tanto nos dizem de onde viemos e para onde caminhamos.

Referências

CHIZIANE, Paulina. Niketche: uma história de poligamia. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

DALCASTAGNÈ, Regina. Literatura brasileira contemporânea: um território contestado. Rio de Janeiro, Vinhedo: Editora da UERJ, Horizonte, 2012.

Ana Patrícia Ferreira Rameiro é Mestranda do Programa de Pós-graduação em Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Pará (UFPA). Funcionária pública, escritora e feminista.