N. 19 – Belém/PA - Novembro/Dezembro - 2014

Entrevista

Reprodução de Depoimento da Coordenadora do Gepem  para  Lembrar, sob a Ótica das Relações de Gênero, os mais  de Cem Anos do Sutiã.

Maria Luzia Álvares


Sutiã e Corpo Feminino X “Objeto de Pecado”

Sabe-se que a criadora dessa peça íntima foi a francesa Herminie Cadolle (1845-1926) que em 1889 decidiu separar a parte de cima de um espartilho. Mas essa invenção só foi patenteada em 1913 (para alguns foi em 1914) por uma norte-americana, Mary Phelps, que modernizou o desenho, mas não conseguiu sucesso. Creio que há uma cronologia dos rumos tomados por essa peça da indumentária feminina que culturalmente assentou-se nas varias versões dadas ao corpo da mulher pelas instituições sociais e, principalmente, pela instituição religiosa.

O corpo feminino sempre foi tomado como pecaminoso. As roupas facilitaram esconder esse corpo - embora algumas modas o desnudassem -  porém, jamais foi ignorado mantendo-se  os seios na perspectiva de “objeto de pecado”. A minha geração, desde a adolescência, foi formada com a antevisão de que em certo momento da vida o sutiã seria indispensável para as meninas. Como isso era um fato consumado, nossa espera pela indumentária íntima (para quem usava três ou quatro peças antes do vestido) incluía avaliar que  vesti-la era assumir um novo status na condição de ser mulher e avançar para outras etapas, como a de já ter idade para namorar, noivar e casar, pois usarmos sutiã representava que nossos seios haviam crescido e, nesta condição,  passávamos  a ser vistas como  mães em potencial e prontas para o casamento -- este estado civil ao qual estávamos destinadas tinha forte ascendência nas aspirações das famílias para as suas meninas. Portanto, não é possível falar do sutiã sem tocar em todo um ambiente cultural que estava além da moda, da novidade, da modernidade, mas visceralmente ligado ao corpo feminino.

Sutiã Incinerado X  Movimento Feminista

Não é verdadeira a informação de que  a peça já foi odiada por feministas. A queima dos sutiãs em praça pública, numa atitude de um grupo de ativistas norte-americanas chefiadas por Betty Friedan, nos anos 60 do século XX, foi um marcador social para demonstrar que, apesar de  sermos tratadas somente pelo sexo, nós éramos muito mais do que isso: éramos seres humanos com direitos e queríamos ser tratadas como cidadãs. O protesto também queria mostrar que a sexualidade não se traduzia apenas em maternidade, mas também em desejo e prazer sexual-- direitos reivindicados pelas mulheres.

A significação da queima dos sutiãs nos anos sessenta teve o mesmo significado das greves de fome e do acorrentar-se às grades dos prédios públicos, às passeatas que em nível mundial motivou as feministas do princípio do século na luta pelo direito do voto. Era preciso chamar atenção das autoridades para alguns direitos que não eram concedidos às mulheres. É como hoje, a luta das mulheres contra a violência doméstica. Ou seja, lutar pelos direitos tem marcado a história do feminismo. Neste sentido, a “fogueira dos sutiãs” foi para mostrar que, além de um corpo. as mulheres têm inteligência.

Valorização do Sutiã X Bem-estar da Mulher

Se o sutiã foi uma invenção para o bem-estar da mulher – veja-se a apertura em que viviam as nossas tetravôs com os espartilhos – mesmo que os múltiplos modelos tenham atravessado o mundo, essa peça do vestuário serviu e tem servido para muitas valorizações e desvalorizações do corpo feminino, dependendo do que a sociedade possa achar deste. Apelou-se para o sutiã para encobrir a nudez ou para realçar a esbelteza feminina mediante seios perfeitos. Há as mulheres que precisam dele para garantir a forma, embora em tempos passado se acreditasse que o sutiã causava câncer se usado permanentemente.

Outro ponto é que o uso do sutiã passa, a meu ver, não só pela questão de gênero, mas também de geração, ou seja, as pré-adolescentes já acham hoje no mercado peças específicas para elas. A família toda acompanha o desenvolvimento da menina que se envaidece ao comprar o  primeiro sutiã. Ao longo da idade, de acordo com o vestido e o lugar, esta peça vai acompanhando a demanda da compradora e do tipo de vestido que ela vai usar. As idosas se motivam para manter a forma usando um modelo que as faça demonstrar menos idade com o tamanho e perfil dos seios. Vê-se, então, a valorização para alguns e a desvalorização para outros, mas sem sair do item principal da indumentária feminina.

Comportamento Feminino X Ousadia e Rupturas dos Modelos

A praticidade e as voltas do mercado para encontrar um meio de atrair as compradoras podem estar subjacentes à desenvoltura feminina no dia  a dia com o uso do sutiã. Hoje ele se tornou um elemento do vestuário que combina com qualquer outra peça da roupa feminina. Penso também que não há mais vestígios das punições sociais àquelas que não andavam de sutiã, em outra época, vistas como ousadas (“queriam se mostrar”, como se dizia).

A busca pela melhoria da qualidade de vida tem acompanhado as aspirações de homens e mulheres que passaram a adotar novos comportamentos em relação ao trato com o corpo. A própria sociedade tem avançado nas rupturas com os modelos que ela considerava próprios para os dois gêneros. Avalie-se na década de 1950 uma mulher andar com calças coladas ao corpo como se usa hoje nas caminhadas ao ar livre para manter a forma. Não é só pela vaidade que foram adotados exercícios corporais que tendem a ser vistos como “culto ao corpo”, mas para aumentar a autoestima ao sentirem seu organismo e músculos mais firmes.  E isso as mulheres de uma dada classe social, a longo custo, aprenderam e hoje elas não se sentem culpadas de criar um tempinho em sua agenda para ir à massagem, à ginástica, à caminhada. Comenta-se que as mulheres mais maduras procuram meios de manter o corpo “sarado”, o que é uma mudança de comportamento, quando em gerações anteriores as avós que estavam na faixa dos sessenta anos tinham um papel predeterminado pela sociedade: cuidar dos netos. Hoje elas estão “saradíssimas”.

Mulher como Objeto Sexual X Estereótipos Machistas

Os modelos femininos vão e voltam. Hoje se insinua que as mulheres podem recompor a silhueta perdida mediante a rigidez dos seios e, desse modo,  recuperar o perfil perdido. Nesse caso, se antes o sutiã era o responsável por  esse resultado, agora o silicone se ajusta a esse clima e demanda novos modelos de sutiãs que exibem o “perfeito”. A meu ver, não quebra paradigma, mas retorna aColete para modelaro que as mulheres do século XIX achavam nos espartilhos.

Quanto ao estereótipo, elas não devem se sentir culpadas porque se embelezam ou criam autoestima ao tratar do corpo. O estereótipo é dizer que as mulheres são vaidosas. Mas se são belas, que mostrem essa beleza. A questão do sexismo ou de as mulheres serem vistas como objeto sexual  está no processo de criação da própria mídia que explora certos atributos femininos e faz deles moeda circulante.

Entrevista originalmente concedida ao Jornal “O Liberal”, em  08/11/2007, para lembrar os 100 anos de criação do sutiã.

Maria Luzia Miranda Álvares é Doutora em Ciência Política, Coordenadora do GEPEM/UFPA e uma das pioneiras dos estudos de mulher e gênero, no Pará.