N. 19 – Belém/PA - Novembro/Dezembro - 2014

Nos Caminhos das Mulheres: gênero na UFPA

Maria Luzia Álvares

O que faz uma pessoa ampliar seus saberes num campo de conhecimentos? Certamente o interesse em aprender mais noções sobre vertentes novas que impactam o que esteve sempre estabelecido num status quo tradicional e de repente engendra novos rumos.

Entre os estudos e pesquisas acadêmicas desde os anos sessenta, no Brasil, a situação das mulheres passou a fazer parte do interesse acadêmico. Quem é esse ator social? Qual a diferença das relações sociais em que estão na “gangorra” homens e mulheres com diferentes características, embora um dos lados seja sempre o hierarquizado ou o que apresente maior importância em todas as chamadas marcantes das representações sociais?

No final dos anos 60, mais precisamente em 1967, Heleieth Saffioti (1934-2010) defendeu uma tese de livre-docência para a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Araraquara, da Universidade Estadual de São Paulo (UNESP), texto pioneiro – “A Mulher na Sociedade de Classes: mito e realidade”, o eixo detonador dos estudos que se seguirão a partir daí sobre a questão da mulher. Transformada em livro, com inúmeras edições já publicadas, esta tese reúne importante contribuição aos estudos sobre a mulher e o seu lugar na sociedade capitalista brasileira.

Mas é somente no período de 1970 – 1975, com os eventos internacionais relativos à criação de movimentos de liberação da mulher e no contexto anglo-saxão (com a criação de centenas de cursos de “Women’s Studies”), resultante da pressão desses estudos, que se pode falar numa “pré-história” de interesse sobre esta área específica, no Brasil.

Em 1975, a ONU declara o Ano Internacional da Mulher e o feminismo brasileiro acadêmico ou não se incorpora às comemorações mundiais. Começam a tomar corpo os segmentos interessados num novo debate que se inicia. Surgem os grupos de reflexão, os de ação e reflexão, que procuram explorar sua autonomia no meio político de esquerda.


Em 1977, a antropóloga paraense Maria Angélica Motta-Maués trabalha sua pós-graduação em nível de mestrado, na UnB – Universidade de Brasília – utilizando-se de temática convergente nas teorias clássicas de sua área, trazendo para o cenário acadêmico as mulheres de uma comunidade paraense, as simbologias de sexualidade e o cotidiano da casa vivenciado por essas mulheres. Ela demonstra os diferentes comportamentos de “trabalhadeiras” e “camarados” e visibiliza as práticas ritualísticas femininas que afastam as mulheres locais ou atividades que constituem domínios importantes de sua sociedade, quando certas situações do ciclo vital da mulher se externalizam, como a menstruação, a gravidez, o parto, o puerpério.

No período de 1987-1992, houve um recrudescimento dos estudos sobre a mulher, na UFPA. Registra-se a participação das acadêmicas na orientação de TCCs, de monografias de especialização, de dissertações de mestrado, além de palestrantes nos eventos realizados pelos movimentos de mulheres sobre temas como a questão das relações de trabalho, sexualidade e participação política.

Os primeiros núcleos de estudos e pesquisas criados no Brasil datam da década de 80. A partir da década de 90, a questão da mulher tende a incorporar a perspectiva de gênero como categoria de análise, impulsionando a criação de novos núcleos. Neste período, há também o estímulo à criação de grupos de trabalho (Gt’s) nas Associações Científicas, que se reúnem anualmente para debater as questões acadêmicas e da pós-graduação, como a ANPED (Educação), ANPOCS (Ciências Sociais), ANPUH (História), ABRALIC (Literatura Comparada), ABA (Antropologia), além do apoio orçamentário às pesquisas, nessa área, por instituições de fomento, como a Fundação Ford, por exemplo, que subsidia os primeiros concursos promovidos pela Fundação Carlos Chagas, em torno da problemática da mulher e relações de gênero, incentivando uma razoável produção científica de alta qualidade e competência.

No Pará, as discussões em torno desse conceito emergiram e tomaram uma linha regular de questionamentos com a criação, em 1994, do Grupo de Estudos e Pesquisas “Eneida de Moraes” sobre a Mulher e Relações de Gênero – GEPEM –, no IFCH/UFPA, reunindo docentes pesquisadoras e suas bolsistas das diversas áreas interdisciplinares das Ciências Sociais, da Saúde, do Serviço Social, da Educação e das Letras e Artes, quer da UFPA, quer de universidades particulares e estaduais do Pará. As paraenses foram incentivadas pela participação ao I Encontro de Pesquisadoras sobre a Mulher e Relações de Gênero do Norte e Nordeste, promovido pelo NEIM/UFBA, em 1992, em Salvador/BA.

A produção científica da UFPA, a atual e a advinda dessas fases iniciais, trabalha com a questão feminina na perspectiva de gênero e alguns desses trabalhos incluem discussões sobre a perspectiva feminista. A tecnologia metodológica

incorporada nesta produção tem se utilizado das referências teórico-clássicas de áreas tradicionais das Ciências Sociais, da Literatura, e da Psicanálise, em que metodologias qualitativas e quantitativas interligam-se numa visão interdisciplinar, contemplando-se várias áreas do conhecimento tais como: a história, a antropologia, a literatura, a sociologia, a psicologia, a ciência política, o direito, a medicina etc.

A criação do GEPEM, em agosto de 1994, teve repercussão considerável nesses estudos na UFPA, tanto na área da graduação quanto na pós-graduação. Sua estruturação tem sido efetivada por meio de encontros acadêmicos, seminários, produção científica, TCCs, integração com os movimentos sociais e movimentos de mulheres, fomento de intercâmbio intercentros e interdepartamentos, estimulando-se a problemática de seus estudos com a formulação de pesquisas específicas sobre a mulher e as relações de gênero numa perspectiva contextual de abordagens. Além disto, há projetos oficializados que integram subprojetos de bolsistas, nas várias linhas de atuação como na literatura, relações de trabalho, meio ambiente, história social, comunidades negras, indígenas, pesca, religião, sexualidade, transformismo, velhice, saúde e violência, entre outros.

A socialização da produção científica tem sido desenvolvida tanto na área urbana quanto na rural, por meio de seminários, painéis, workshops, consultorias, entre outros. Ainda como meta de trabalho, tem sido efetivado regular intercâmbio com os movimentos organizados de mulheres e instituições não-governamentais e governamentais, tanto locais quanto nacionais.

Hoje o GEPEM está na maioridade e avançando para os 20 anos de presença acadêmica. Dizer que já “demos conta” de todas as questões femininas nesses 19 anos de existência com militância política para além do academicismo das áreas de conhecimento é não reconhecer que, ainda, precisamos lutar mais para que a UFPA se torne um centro anti-homofóbico, onde a diversidade seja uma causa sempre à frente nas conquistas de cada dia da população universitária.

Maria Luzia Miranda Álvares é Doutora em Ciência Política, Coordenadora do GEPEM/UFPA, Coordenadora Regional do OBSERVE. e uma das pioneiras dos estudos de mulher e gênero, no Pará, desenvolvendo trabalhos sobre a temática feminismo, mulher e gênero, com incursões sobre o entrelaçamento das representações socioculturais nas estruturas de poder.

Fotos: acervo Gepem.
Nota:
consultar biografia do Gepem no link Edição Histórica