N. 19 – Belém/PA - Novembro/Dezembro - 2014

Lya Luft: pensar é transgredir

Em 2010, a escritora brasileira Lya Luft publicou o livro Pensar é Transgredir, no qual incluiu a  crônica Nem tanto assim expressando  pontos de vista acerca das mulheres e relações de gênero.

Neste começo de milênio, somos tão diferentes das mulheres antigas?

O que mudou em nós? Tudo será agora tão positivo como nos dizem, e foi outrora tão ruim como parece?

Afinal, na Idade Média havia tecelãs inscritas em sindicatos; em todas as épocas, mulheres cultas escreviam, debatiam, influenciavam seu meio. Embora sempre em quantidade bem menor do que os homens, não eram exceções tão raras quanto nos parece.

Onde foi parar a história dessas que administravam propriedades e bens quando os maridos iam à guerra, transmitiam a tradição oral da sua gente, eram depositárias de lendas, praticavam medicina (muitas vezes sendo consideradas bruxas), parindo e educando os futuros guerreiros e mandantes do seu povo?

Rainhas ou mulheres de senhores feudais participaram de campanhas bélicas ao lado dos maridos, ou lutavam em seu lugar quando eles precisavam combater em outra parte; séculos atrás, na Europa, mulheres não se dedicavam apenas às intrigas da Corte, mas algumas davam cursos públicos de retórica, falavam latim, conheciam teologia e filosofia. As poucas hoje comentadas só aparecem como esposas de seus maridos famosos. (Joana d”Arc teve o nome perpetuado por si mesma: foi preciso que morresse queimada numa fogueira inquisitorial).

Houve toda uma camada de existência organizada, administrada, transmitida pelas mulheres: hoje se inicia essa escavação, essa arqueologia, reconstituindo o fio que nos foi cortado.

Quais as complexas razões de essas vidas permanecerem na sombra? Foi apenas porque “os livros de história são escritos por homens”, portanto não abrem lugar para nada de importante realizado por mulheres? Acho simplória essa explicação. Eles seriam tão poltrões que não cederiam à mulher o seu devido lugar nos fatos do mundo?

Premida por desejos e necessidades, pondo-se em busca de trabalho e realização além daquela doméstica que aparentemente lhe cabia por destinação, a mulher afinal percebeu que era mão de obra desqualificada. Saiu a campo para preparar-se, quando sua situação anterior se cristalizara há um bom tempo. Nem passaria pela cabeça do até então amo e senhor que a mãe de seus filhos pensasse em pegar um emprego, e também a ela isso provavelmente não ocorreria com frequência.

Mulher “não trabalha fora” a não ser que fosse muito pobre, ou tivesse um marido incompetente para a sustentar. “Mulher minha não trabalha” era dito com satisfação e certa arrogância. Hoje, em grupos de jovens mulheres, olha-se com certa piedade a que “só” fica em casa.

Isso pode levar a uma inversão exagerada.

Ficar “só” em casa será mesmo tão pouco assim? Ser “apenas” mãe desses filhos, administradora dessas contas e projetos pode não satisfazer plenamente quem sente em si potencial para muito mais que isso.

Mas será uma função inferior?

Que compensações pode trazer em cada família, em cada caso individual?

As questões humanas são complexas começando por isso: dificilmente se podem estabelecer com justiça e justeza regras gerais, quando se trata de costumes, sentimentos, tradições, legados familiares emocionais e conceituais, tipos de relacionamento.

Estamos botando de pernas para o ar o nosso conceito: às vezes é preciso plantar bananeiras mentais para entender o que se passa, e descobrir o que deveríamos fazer. Na maior parte das vezes, temos de nos contentar com o que podemos realizar ou pensar.

Questionar é um bom começo.

Para que a resignação ou o ressentimento, acompanhados pela ignorância, não nos paralisem com seu hálito funesto”.

Nota: imagem e texto selecionados e enviados à editoria do Iaras por Lilian Adriane Ribeiro.

Fontes: a)texto (LUFT, Lya. “Nem tanto assim”. In: Pensar é transgredir. Rio de Janeiro: BestBolso, 2010,  p. 61-63); b)imagem ( http://cemanosdeitabuna.ning.com/profiles/blogs/o-dia-de-nao-saber-por-lya-luft)