N. 19 – Belém/PA - Novembro/Dezembro - 2014

Entrevista: Eneida in memoriam

Reprodução de Autoentrevista  da escritora e jornalista paraense Eneida de Moraes, patrona do GEPEM,  expressa no poema Oração do Meu Orgulho, publicado no livro Terra Verde (1929).


EU sou de uma cidade risonha,
onde as mangueiras cantam
a canção do vento...
cidade onde o sol é sol, porque é forte, ardente, tropical e bom...
onde a lua é uma grande amorosa,
accordando
sons de violões e volupias de amor.
Eu sou de uma cidade risonha
onde a natureza é um hymno ao Brasil!...
onde as mulheres são morenas e ardentes,
onde os homens são leaes e destemidos...
Eu sou de uma cidade risonha que as aguas guajarinas banham...
Minha cidade tão bôa, tão linda, tão hospitaleira...
Nella vivem ainda uns restos do Passado...
Aqui ainda ha crenças,
ainda ha sonhos...
Ha batuques de pagés,
ha banhos de cheiro...
Contam-se lendas de cobras grandes...
Viu-se a Yára em noites de lua...
os botos seduziram cunhantans...
A crença que vive na gente humilde não será verdadeira?
Quem encontra defeitos no seu Deus?
O caboclo inculto crê em cousas cheias de poesia. É uma crença linda...
A gente da minha cidade que viajou e viu
e está vestida de civilisação,
costuma chamar atrazo ás nossas velhas crenças...
Eu, no entanto,
acho-as lindas, e passei, dias e dias,
ouvindo
o velho caboclo que é meu Pae,
explorador das matas amazonicas,
navegador ha cincoenta e dois annos da Amazonia,
e que tem em si a coragem, o animo a sinceridade,
de todo o homem do mar...
Meu pae é o livro mais interessante que eu senti sobre o Amazonas.
Elle sabe onde se caçam garças ao cahir da tarde,
como se pegam crocodilos nos charcos...
Elle conhece homens que conversam com cobras e as domesticam...
elle descreve a pororóca
em noites de lua prateada...
elle revive aos nossos olhos
todas as mattas amazonicas,
todos os paranás,
todos os furos,
todos os igarapés
desse rio immenso.
Foi esse velho caboclo que é meu pae,
que me ensinou amar como eu amo
este meu Brasil!
Amando-o desde os confins de suas mattas,
onde a civilização nem siquer fez-se ouvir,
até ás nossas lindas cidades...
Eu tenho um orgulho immenso de meu Brasil,
orgulho de ter nascido
na cidade risonha e humilde,
onde as mangueiras cantam a canção do vento!
Minha cidade de S. Maria de Belem!

Terra Verde, publicado em 1929 pela Livraria Globo (Belém Pará), é um livro representativo da estreia de Eneida na literatura. Contém 26 poemas em versos livres referendando o manifesto Flami-n’-assu, liderado por Abguar Bastos.  Além disso, atuando como jornalista, ela  publicou inúmeras crônicas e reportagens em jornais e revistas, sendo algumas,  entre os anos 1954 e 1965,  reunidas em livros. Sobre a vida e obra da escritora, consultar Eneida: memória e militância política( Eunice Santos, 2009, Editora GEPEM).

Nota: na reprodução do texto, foi mantida a grafia segundo as normas ortográficas vigentes à época de publicação do livro.