N. 19 – Belém/PA - Novembro/Dezembro - 2014

Seção: Mulheres, Política e Poder


Maria Luzia Miranda Álvares

A Metodologia e uma História das Mulheres Paraenses no Poder

No projeto de pesquisa Mulheres na Política: histórias de percursos e de práticas (CNPq), considerou-se que os meios de avaliar o crescimento do número de mulheres na política formal, tanto no Brasil quanto nos demais países, têm usado regularmente o sistema de agregação de dados eleitorais de candidaturas e de eleitas no âmbito parlamentar e majoritário, fazendo comparativo desses dados, algumas vezes em série histórica, devido às denúncias dos movimentos de mulheres e feministas quanto à sub-representação política feminina. O sistema democrático se reestrutura por meio de leis e normas para receber este gênero. Contudo, pergunta-se: quem são, como são e o que pensam essas mulheres que optam em concorrer para esses cargos legislativos e executivos? Que interesses têm para avançar num espaço pouco sensível à sua presença, considerando-se que para se tornarem cidadãs as mulheres necessitaram investir na luta sufragista desde o século XIX e conseguir esse direito que institucionalmente os seus parceiros homens já haviam conseguido?

Nessa argumentação de que os números agrupados fragilizam o olhar para a constituição das personagens femininas no campo político, supôs-se que outra metodologia de abordagem empírica trouxesse maiores subsídios para o conhecimento do perfil mais substancial das mulheres que concorrem aos cargos eletivos. Pensou-se que ao conhecer a história de vida dessas mulheres seriam abertas outras vertentes de uma micro-história singular, que apontasse o percurso feito por elas até à opção pela carreira política e, desse modo, se pudesse  analisar o papel delas enquanto indivíduos, a conjuntura em que conviveram com a família, os aspectos educacionais, culturais, sociais e políticos de seus relatos pessoais e da própria história. Com isso, houve comprometimento com uma nova vertente metodológica privilegiando as discussões em torno da nova epistemologia da ciência histórica que desde o século XIX sofria críticas e pressões conforme se sustenta a emergência das ciências, e desabrigando certas fontes antes hierarquizadas por se constituírem  critérios de verdade histórica (Augusto Comte exigia as ferramentas das ciências exatas  e naturais para validar os fatos), desconfiando e desqualificando outras metodologias aplicadas que circunstanciavam análises de fatos políticos. Daí certo peso que a História carregou durante muito tempo de somente se preocupar com a interpretação do passado.

Ao fazer o recorte para o momento atual em que a história recente e o uso de testemunhos diretos de cidadãos têm a ver com a investigação dos fatos históricos, a história do tempo presente emerge como vetor de desenvolver uma nova etapa dos estudos históricos com uma tecnologia metodológica que hoje favorece a interdicisplinaridade e a interligação com outras fontes, como o uso da história oral e da memória (não sem pressões, diga-se) vetores de análise sobre o tempo presente. Diz Marieta de Moraes Ferreira (2002) que: “O aprofundamento das discussões sobre as relações entre passado e presente na história, e o rompimento com a ideia que identificava objeto histórico e passado, definido como algo totalmente morto e incapaz de ser reinterpretado em função do presente, abriram novos caminhos para o estudo da história do século XX. (...)”.

O novo olhar para o estudo da história recente carece, sem dúvida, de tecido metodológico com o uso de regras estabelecidas pela comunidade científica. Não é sair por aí com um gravador e recolher depoimentos orais sem um preparo condizente com o que será acolhido do relato individual ou coletivo necessário ao tema da pesquisa e dizer que é “científico”. Mas a história oral e a memória refletem hoje uma dimensão ímpar estabelecendo contornos diversificados sobre uma base de dados estatísticos que um/a pesquisador/a extrai e considera irretocáveis, analisando determinados fatos.

Foi nesse enfoque da teoria da história do tempo presente que a equipe do projeto criou argumentos para entrevistas com 62 mulheres eleitas em 2008 aos cargos majoritários (9) e proporcionais (53) de 31 cidades paraenses. Os resultados foram alentadores de um percurso singular de mulheres no poder, mulheres na politica.

Maria Luzia Miranda Álvares é Doutora em Ciência Política, Coordenadora do GEPEM/UFPA e uma das pioneiras dos estudos de mulher e gênero, no Pará, desenvolvendo trabalhos sobre a temática feminismo, mulher e gênero, com incursões sobre o entrelaçamento das representações socioculturais nas estruturas de poder.