N. 19 – Belém/PA - Novembro/Dezembro - 2014

Giselle Ribeiro: linhas escritas são fios de alta tensão

Pesquisas sobre os percursos literários de escritoras paraenses, realizadas no âmbito do GEPEM, evidenciam a existência de potencial acervo autoral publicado em livros e periódicos, tanto em nível local quanto nacional. Neste sentido, apresentamos a poética de Giselle Ribeiro, objetivando divulgar e  formular saberes sobre a singularidade dessa escritura no contexto amazônico.

 

Eunice Ferreira dos Santos

Conversei com  Giselle Ribeiro quando ela, à margem do Rio Guamá,  terminava  uma série de aulas sobre Literatura. Aquela hora da manhã e a proximidade do rio transformaram-se no cenário perfeito (ou quase perfeito) para que ela falasse, com apaixonado entusiasmo - e em ordem do fim para o começo -,  sobre seus livros de poemas:

Isso não é um livro. Isso é um caracol (2013), recém-lançado em abril, na  XVII Feira Pan-Amazônica do Livro, e no qual Giselle se autodefine: “eu tenho medo dessas linhas escritas romperem e as palavras todas caírem sobre meus ombros”. Falando sobre a performance da obra, a poeta considera que o  livro convida o leitor a fazer  um mergulho interior, visto que, desde o layout do título, anuncia-se uma visão holística do conteúdo - o formato do caracol é como se a porta de entrada fosse também a de saída. O livro contém 72 poemas em prosa, diferentemente dos 3 anteriores cuja tônica  são poemas em verso.

Pequeno livro de poemas para vestir bem (2011). Diante de minha curiosidade sobre o título,  ela argumentou: “o poeta é aquele que aumenta o volume de uma  palavra só para fazer ruído térmico no ouvido do leitor” e este, então, “se permite ‘vestir’ o poema no dia a dia.”

69 (2009, edição esgotada) é polêmico porque  se destina “aos que se libertam do pudor, porque deles é o reino do amor”- diz a autora. Em princípio, é um livro no qual ela faz incursões pela literatura erótica, desde o layout do título, embora antes tenha, paradoxalmente, adentrado pela poesia sagrada para, segundo refere, “brincar com as palavras, poetizando o erotismo e questões bíblicas”. Sessenta e nove poemas compõem o livro.

Objeto Perdido (2004), livro de estreia, surgiu em meio aos noticiários sobre a morte da cantora Elis Regina. “Neste momento, ‘nasceu’ a poeta Giselle Ribeiro”- afirma a entrevistada.  O primeiro poema, ainda inédito, foi cremado pela autora em momento de indecisão sobre o caminho poético a seguir.

Ao final da nossa conversa, arguida sobre o que achava acerca  da contribuição das mulheres paraenses à história literária do Pará, enfatizou,  mencionando experiência docente quanto à dificuldade de acesso a esse registro: “tenho a impressão de que há certo descaso em relação a essa produção cultural. Nós, mulheres escritoras paraenses, precisamos demarcar espaço  para evitar a ausência dessa escrita.”

 

Giselle Ribeiro nasceu no Norte do Brasil, em Capanema/PA, no dia 25/outubro/1967.  Na infância, mudou-se para Belém onde reside atualmente.  É poeta e professora de Teoria Literária na Universidade Federal do Pará.
Contato para aquisição dos livros (
exceto 69, edição esgotada): Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.

Texto extraído de entrevista de Giselle Ribeiro (2013) a Eunice Ferreira dos Santos, coordenadora da pesquisa Autoria Feminina na História Literária do Pará(GEPEM/UFPA).
Fotos: Nilson Almeida Filho, bolsista do GEPEM, a quem agradeço a assessoria de gravação e fotografia.