N. 19 – Belém/PA - Novembro/Dezembro - 2014

Bettina Ferro: médica e educadora da UFPA


Cristina Alencar

Neste ano, a UFPA e o HUBFS comemoraram o Centenário de Nascimento de Bettina Ferro de Souza (14 de maio de 2013). A professora e doutora Bettina Ferro foi especialista em Clínica Médica e Cardiologia, e muito contribuiu para as questões de saúde pública no Pará.

De conhecimento diversificado, escolheu a Medicina por vocação e dedicação. Doou-se aos pobres na enfermaria Santo Antônio, nos porões da Fundação Santa Casa de Misericórdia do Pará, buscando amenizar os sofrimentos dos pacientes atendidos e dando prioridade ao tratamento humanizado.

Bettina foi a primeira mulher a ministrar a cadeira de Propedêutica Médica na antiga Faculdade de Medicina e Cirurgia do Pará, em 1950 - até então, seleto reduto masculino -- iniciando sua trajetória acadêmica como assistente sem remuneração, 15 anos depois de formada. É sabido que esta disciplina não era fácil de ministrar. Mas, Bettina atuou com muita propriedade e de maneira muito maternal: tinha a paciência de repetir várias vezes, caso fosse necessário, para que o aluno melhor compreendesse as aulas. Ao perceber que alguns de seus alunos anotavam o que ela ministrava, decidiu elaborar um Manual de Propedêutica Médica, com a colaboração de oito autores.

Bettina congregou muitos conhecimentos. A médica foi a pioneira na área acadêmica da cardiologia paraense, pois os primeiros cursos foram ministrados por ela, em 1956. Além disso, deu aulas em outras áreas que não eram de sua especialidade, como Pediatria, Gastroenterologia, Anatomia e outras. Em 1957, criou e presidiu a Sociedade Paraense de Cardiologia (SPC). E voltou a assumir a presidência em 1962.

Segundo informações obtidas na Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), no Rio de Janeiro, desde sua criação, em 14 de agosto de 1943, somente duas mulheres presidiram esta entidade científica: a primeira Bettina Ferro (1970-1971) - tal era a competência da eminente cardiologista - e depois Glaura Ferrer Dias Martins (1973-1974).

No universo religioso, como resultado de seus trabalhos catequéticos, encenou a peça “Pastorinhas Cruzadinhos de São João Batista”, por mais de 50 anos nas paróquias de Belém. Cabe lembrar que a médica ia à missa todos os dias na Basílica de Nazaré, às 6h.

As homenagens feitas a esta grande profissional é pouco para dizer o quanto contribuiu à Clínica Médica e ao Ensino, pois o seu trabalho dedicado aos pacientes e alunos serve como exemplo a ser seguido.

Vale ressaltar aqui as palavras do professor Clóvis Meira no livro Medicina de Outrora no Pará (1989, p. 228), a respeito da mestra: “todas as homenagens que lhe forem prestadas, inclusive a publicação de um livro com a parceria de seus eficientes colaboradores, ficarão muito aquém de suas qualidades morais e culturais.”

Bettina recebeu reconhecimento em vida e após seu falecimento. A monografia intitulada A trajetória de Bettina Ferro: e sua contribuição para a ciência e a sociedade é mais uma das homenagens a ela entre outras que a professora recebeu. O estudo foi produzido como trabalho final do curso de especialização “Gestão da Informação em Bibliotecas Digitais, da Faculdade de Biblioteconomia da UFPA, elaborado por mim e defendido em 2009 e publicado em maio de 2013.

O objetivo desta pesquisa foi apresentar a trajetória da professora Bettina Ferro, visando análise, levantamento de informações e sua organização para que no futuro seja produzida a Biblioteca Digital da educadora.

A médica foi congratulada com palmas, medalhas, títulos honoríficos, paraninfa e patrona de muitas turmas de medicina.  Durante sua vida, prestou serviços ao próximo. Todas as reverências à professora Bettina são pequenas para aquilatar sua tamanha contribuição à Clínica Médica e ao ensino, ressaltando-se que seu trabalho dedicado aos pacientes e alunos deve ser seguido por quem deseja ser exímio profissional na área médica, pedagógica e catequista.

Quando a médica faleceu, em janeiro de 1993, faltavam quatro meses para completar 80 anos. No mesmo ano, a UFPA lhe prestou a maior de todas as homenagens: a escolha do seu nome para denominar o novo hospital que estava sendo construído.  Viva a doutora Bettina!

Cristina Alencar é Bibliotecária do Hospital Universitário Bettina Ferro de Souza(HUBFS /UFPA) e autora do livro  A trajetória de Bettina Ferro e sua contribuição para a ciência e a sociedade(2013).
Fotos (Bettina, 1935 e 1978): acervo da família.