N. 19 – Belém/PA - Novembro/Dezembro - 2014

Escritos de Lélia Gonzalez no Jornal Mulherio


Luana Diana dos Santos


Quis o destino que Lélia de Almeida Gonzalez  nos deixasse em 10 de junho de 1994, aos 59 anos. Passados quase 18 anos de sua morte, o seu legado tem um valor inenarrável para o entendimento das relações raciais e de gênero no país, nas últimas três décadas.

Na condição de mulher, negra, feminista e cidadã, pretendo contribuir, mesmo que timidamente, para o processo de valorização e reconhecimento de minhas irmãs de cor, cujo percurso é marcado preponderantemente por violências, negligências e silenciamentos, ou, nas palavras de Edna Roland: “é necessário o resgate deste indivíduo cindido e destruído (...) o processo histórico produziu distorções em nossa identidade, (...) é preciso recuperar a nossa identidade, é preciso recuperar a nossa dignidade”[1].

Dessa maneira, desde o ano passado, Lélia Gonzalez tem sido o meu objeto de estudo. Faz-se necessário ressaltar, no entanto, que a escolha da antropóloga mineira como tema central de minha pesquisa não se deu de forma aleatória ou por força do acaso. “Encontrei-a” durante a realização de uma pesquisa sobre a imprensa feminina e feminista no Brasil, da qual participo como bolsista.

De posse da coleção completa do Mulherio (1981-1988)[2], publicação importante do movimento feminista brasileiro, encontrei 5 (cinco) artigos de Lélia Gonzalez, publicados entre 1981 e 1984, período em que ela compôs o conselho editorial do jornal.

Na época, compunham a equipe do Mulherio figuras proeminentes da intelectualidade e do movimento de mulheres brasileiro, como Eva Alterman Blay, Fúlvia Rosemberg, Cristina Bruschini, Ruth Cardoso, Heleieth Saffioti, Maria Rita Kehl, dentre outras.

Lélia era a única mulher negra a participar do projeto mantido pela Fundação Carlos Chagas. Seus artigos-provocações versavam sobre a discriminação racial, o processo de marginalização sofrido pelas mulheres negras na sociedade, o emprego doméstico e suas raízes históricas, temas pouco debatidos no seio do movimento feminista.

Sabemos que, por vezes, a relação entre mulheres brancas e negras no movimento de mulheres também é conflituosa, tendo sido Lélia chamada por diversas vezes, durante sua militância, de “criadora de caso”. Inclusive, o surgimento de grupos e organização de mulheres negras nos anos de 1980 foi motivado principalmente pela pouca visibilidade que as questões pertinentes às afrodescendentes possuíam nas discussões e lutas pela emancipação feminina.

Diante disso, me vieram algumas perguntas: como terá sido a passagem de Lélia pelo Mulherio? Como era sua relação com as demais companheiras? De que maneira suas ideias eram vistas?

Infelizmente, nem todas estas perguntas ainda (ainda!) não foram respondidas da maneira como eu gostaria, porém, as primeiras descobertas são animadoras e só reforçam a importância de Lélia Gonzalez para nós mulheres negras e para todos aqueles e aquelas que lutam por uma sociedade mais justa e democrática.

Os resultados iniciais dessa pesquisa foram apresentados no V Colóquio Mulheres em Letras[3], realizado na Universidade Federal de Minas Gerais, entre os dias 18, 19 e 20 de abril de 2013.


Luana Diana dos Santos é Especialista em Estudos Africanos e Afro-Brasileiros pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Professora de História da Rede Estadual de Educação de Minas Gerais.

1. Cadernos Geledés, 1991.
2. A coleção completa do jornal Mulherio pode ser acessada no site da Fundação Carlos Chagas – http://www.fcc.org.br/conteudosespeciais/mulherio/ Acesso: 10/03/2013
3. O Colóquio Mulheres em Letras é uma realização do Grupo “Letras de Minas”, cujo propósito é estudar a produção literária de autoria feminina, discutir textos acadêmicos e, também, planejar eventos e pesquisas em conjunto. ​
Fontes das imagens: www.geledes.org.br (Lélia Gonzalez);  www.fcc.org.br(Mulherio).