N. 19 – Belém/PA - Novembro/Dezembro - 2014

“Domésticas”: reflexões sobre o trabalho em casa de família

As atividades domésticas não são, em princípio, trabalho, muito menos profissão, embora cruciais na reprodução social das famílias, das comunidades locais e, por extensão,  do próprio sistema econômico capitalista.


Maria Cristina Maneschy


O filme Domésticas, dos cineastas Fernando Meirelles e Nando Olival (2001), baseado na peça teatral homônima de Renata Melo, trata de uma categoria de trabalhadores e, especialmente, de trabalhadoras, que historicamente é invisível, socialmente falando e, mesmo, fisicamente. Figura dos fundos da casa, da área de serviço, do quartinho cuja porta, o mais das vezes, dava para o tanque de lavar roupa. Enfim, uma vida secundária no ambiente do lar empregador e do ponto de vista das classes para as quais prestava serviços pessoais, até há pouco quase sem cobertura trabalhista. O filme inverte essa representação social dominante ao focalizar, de forma quase etnográfica, um grupo de empregadas em uma metrópole brasileira, suas histórias e suas vozes.

Textos importantes da literatura brasileira trataram dessa personagem com grande sensibilidade, valendo lembrar aqui uma significativa amostra: Sonho de Moça, de Cora Coralina, e Velas por Quem, de Maria Lúcia Medeiros. Solidão, sonhos limitados, destinos que se repetiam de mãe para filha, sobressaem em ambos os contos. As trajetórias que fazem a trama do filme também relevam essas características do exercício do trabalho em casa de família, embora com evidentes diferenças em razão de se referir ao início do século XXI, enquanto os dois contos tratam de décadas bem anteriores.

No Brasil hoje, com grande atraso, trabalhadores e trabalhadoras domésticas alcançam direito à jornada de trabalho determinada e a horas extras. Portanto, neste momento, emergem na cena política, enquanto se discutem no Congresso Nacional as últimas medidas para alterar a legislação trabalhista rumo à sua equiparação com as demais categorias. A despeito disso, seu mundo – seu cotidiano, identidade profissional, seus planos, as representações sociais sobre si próprias e os outros, como cuidam de seus próprios lares... – permanece como se fosse parte de um mundo estranho, tão perto e ao mesmo tempo tão longe.

Neste sentido, no Cine-Gênero As Faces da Trabalhadora Doméstica, evento promovido pelo GEPEM/UFPA e inspirado no filme de Fernando Meirelles e Nando Olival, abordei o emprego doméstico feminino de uma perspectiva sociológica, respaldada principalmente nas autoras Helena Hirata e Danièle Kergoat (2007). E refleti sobre os significados da permanência e das transformações desse emprego na realidade brasileira contemporânea enquanto, ao mesmo tempo, em países desenvolvidos aumentou o contingente de trabalhadores domésticos.

Maria Cristina Alves Maneschy é Doutora em Sociologia (Université Toulouse Le Mirail, França). Atualmente é professora associada da UFPA, vinculada ao Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. É membro do ICSF - International Collective in Support of Fishworkers, rede de pesquisadores, técnicos, professores e ativistas comunitários envolvidos com questões de interesse dos trabalhadores da pesca, inscrita na lista de ONGs internacionais da Organização Internacional do Trabalho e reconhecida pela FAO. Participa, também, do Grupo de Estudos e Pesquisas Eneida de Moraes sobre Mulher e Relações de Gênero (GEPEM/UFPA).