N. 19 – Belém/PA - Novembro/Dezembro - 2014

Entrevista: As Mulheres e a ‘Arte’ de Viver

Reprodução de Entrevista concedida pela Coordenadora do GEPEM ao jornal “O Liberal” (2/3/2013), comentando o evento “As Mulheres e a ‘Arte’ de Viver”


Maria Luzia Álvares


1. Qual a proposta do GEPEM com a escolha dos filmes?

MLA - A proposta da Mostra de Cinema “As mulheres e a ‘arte’ de viver” foi objeto de escolha para comemorar o Dia Internacional da Mulher”, ao menos por dois motivos: como o suporte  cinematográfico capta e projeta as imagens para  se “ver” imagens de representação das mulheres  em várias situações.  No GEPEM/UFPA, temos uma atividade  chamada  de “Cine-Gênero” que promove o tema e o problema a ser discutido, estimulando o público a  ficar  atento à situação exposta num filme. Como esta mídia vive no nosso cotidiano, é interessante mostrarmos de que forma as mulheres são vistas pelo olhar da câmera e de que maneira pode-se tratar disso, considerando os temas que cada um/a de nós estuda sobre a questão das mulheres e as relações de gênero. O título da Mostra tem a ver com o que consideramos que nós mulheres mantemos no convivio social e familiar em meio a tantos preconceitos, discriminações, mas que, por meio de  uma certa “arte” de sobrevivência, conseguimos superar e conquistar novos espaços. Isso ocorreu secularmente e ainda hoje está aí comprovando que, apesar de  toda a carga de atividades no espaço privado e no público, conseguimos ser guerreiras e lutar pelas coisas  que nos afligem, entre as quais, a violência doméstica, a falta de tempo para ficar  com as nossas crianças,  a conquista de novos graus escolares. Em vista dessas circunstâncias, o importante é que a “arte de viver” nos leva  à  outras parceiras para nos ajudar. E assim, vamos vencendo, vamos caminhando, vamos articulando cotidianamente a nossa grande arte que é VIVER.

O evento é uma promoção integrada com as seguintes parcerias: Pró-Reitoria de Desenvolvimento e Gestão de Pessoal (PROGEP/UFPA) por intermédio da Diretoria de Saúde e Qualidade de Vida (DSQV); FUMBEL - Fundação Cultural do Município de Belém; Cinema Olympia; Associação de Críticos de Cinema do Pará (ACCPA); Fórum de Mulheres da Amazônia Paraense e demais movimentos de mulheres do Pará; e o Núcleo de Estudos Interdiciplinares sobre a Violência na Amazônia (NEIVA).

2. Por que o cinema foi escolhido como meio de debate para as questões femininas?

MLA - O cinema expressa em imagens o que a sociedade tem demonstrado em versões sobre as representações sociais, evidenciando as relações de gênero no enfoque sobre as atividades, formas de luta, conquistas e/ou os arquétipos tradicionais dos tipos femininos e masculinos, avançando para os mais ousados em mudanças nem sempre aceitas, posto que alguns tipos provocam o reconhecido status quo (as condutas que designam o estado atual das coisas, a mostração das mulheres que são consideradas “dentro das regras” e são dadas como “perfeitas”). Usado como tecnologia de análise, o cinema tem demonstrado auxiliar as discussões sobre as várias temáticas codificadas em imagens cujo processo de significação explora duas vertentes: a) a imagem tomada como signo linguístico com discussões sobre a arbitrariedade, a imitação e a referêncialidade; b) ou esta imagem tomada pela extensão, distância, profundidade, verticalidade, estabilidade, imitação, textura objetivando a forma de apreensão (ou a leitura) desta imagem sobre a sua especificidade (Souza, 2001).

Por meio desta abordagem,  espera-se mostrar, no Cine-Gênero efetivado pela Mostra de Cinema “As mulheres e a ‘arte’ de viver”, o peso dos meios de comunicação que usam a imagem, seja ela verbal ou não verbal, na significação das diferentes formas construidas das relações sociais, na perspectiva de gênero, entre cenários, atores e cenas ilustrativas do modus vivendi social desses personagens.

O Cine-Gênero é uma atividade regular nos estudos de gênero, no GEPEM, e contribui para as discussões emergentes nas várias áreas do conhecimento, incluindo-se, nesta nova perspectiva, a narrativa cinematográfica como vetor de algumas imagens dissonantes no contexto dessa linguagem visual.

3. Antes do filme acontecerá uma apresentação feita por professoras, como será essa apresentação?

MLA- O GEPEM/UFPA é formado de cinco linhas de pesquisa, nas quais se concentram as pesquisadoras, professoras, alunos/as bolsistas em temáticas específicas. Quando escolhemos o cinema para discutir  esses temas, centramos em alguns que nos pareceram essenciais para que o público percebesse  a “arte de viver” das mulheres. Dessa forma, os temas se centraram nas linhas de pesquisa referidas abaixo:

Dia 05/03 – “Parente é Serpente” (Parenti serpenti, Itália,1992), de Mario Moniccelli  (tema: gênero e geração). Apresentação Profa. Maria Angelica Motta-Maués.

Dia 06/03 – Desejo Proibido (If These Walls Could Talk, EUA, 2000), de Jane Anderson, Martha Coolidge e Anne Heche (tema: gênero e sexualidade).Apresentação : Profa. Denise Machado Cardoso.

Dia 07/03 – “Benny e Joon – Corações em Conflito” (Benny e Joon, EUA, 1993), de Jeremiah Chechik (tema: a questão de gênero e saúde mental e antimanicomial). Apresentação: Profa. Eunice Figueiredo Guedes.

Dia 08/03 –“Miss Potter” (EUA, 2006), de Chris Noonam (tema: mulher e literatura). Apresentação : Profa. Eunice Ferreira dos Santos.

Dia 09/03 – “A Conspiração” (Alem. UK, EUA, 2000), de Rod Lurie (tema: mulher e política).

Apresentação: Profa. Luzia Álvares.

Dia 10/03“Que bom te Ver Viva!” ( Brasil, 1989), de Lúcia Murat (tema: mulher brasileira e a luta pela vida na ditadura). Apresentação: Profa. Eneida Guimarães Santos.

4. Qual a importância de se comemorar o dia Internacional da Mulher?

MLA- Se esse dia veio em decorrência de várias situações trágicas e/ou políticas vividas pelas mulheres, como nos mostra a História, hoje,  sua importância é elaborar, justamente, uma disseminação de alguns pontos fundamentais que ainda precisam ser debatidos e externalizados  acerca das situações difíceis que as mulheres vivem. Sabemos que há muito mais coisas para registrar num dia de celebração, por isso, o que os grupos de estudos de gênero e os movimentos de mulheres têm realizado nessa celebração é deixar à mostra certas situações que ainda carecem de ser retratadas mediante  políticas públicas. A   exemplo, hoje, no Pará, foi detectado o tráfico de mulheres e jovens para frentes de trabalho com o fim de se prostituírem, sendo a maioria delas seduzida para outros trabalhos e não para se tornarem “objeto de sexo” desses trabalhadores.

Então, esse dia é importante para manifestarmos nossa condenação contra esses grupos de tráfico. Oferecer uma flor às mulheres, nesse dia, é importante, pois é uma demonstração de respeito --, embora haja locais que oferecem esses mimos, mas tratam suas funcionárias com intimitação, assédio moral e outras formas de violência. Neste sentido, o  Dia Internacional da Mulher serve de celebração, de homenagem e, também, de protestos para que as violências contra esta deixem de ocorrer.

5. O que é o GEPEM?

MLA-. É o “Grupo de Estudos e Pesquisas Eneida de Moraes sobre Mulher e Relações de Gênero”, criado em 1994, e que, seguindo o que estava sendo feito em outras universidades brasileiras, hoje  constitui um núcleo de atividades e discussões, centrado na Faculdade de Ciências Sociais do IFCH/ UFPA. É composto das seguintes linhas de pesquisa:

1) Mulher, Gênero e Participação Política; 2) Mulher, Relações de Trabalho, Meio Ambiente e Desenvolvimento; 3) Gênero, Identidade e Cultura; 4) Gênero, Arte e  Literatura e 5) Gênero, Saúde e Violência. Em cada uma dessas linhas, agregam-se docentes e pesquisadoras, alunos/as da graduação e bolsistas. Ele foi constituído por  metas, objetivos e propostas de estudos e ainda se mantém nessa linha, sendo uma referência para os/as universitários/as e outros ramos de conhecimento em consultas sobre o tema, existentes na sala do GEPEM, no IFCH. Presentemente as associadas, em especial a Profa. Eunice Santos, criaram o jornal IARAS (http://www.jornaliaras.ufpa.br/) e uma Revista Científica Gênero na Amazônia (http://www.generonaamazonia.ufpa.br/) que está no segundo número. Todos são online e qualquer pessoa pode acessá-los. Há também o site http://www.ufpa.br/projetogepem/. Atualmente, algumas colegas integradas ao grupo estão criando o NEIVA – Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre Violência na Amazônia – aprovado pelo Instituto de Ciências Jurídicas/ICJ-UFPA. Também estamos criando o Laboratório de Estudos de Gênero onde serão integradas duas atividades que vinham sendo desenvolvidas: O Cine-Gênero e os Seminários de Estudos Interdisciplinares sobre Questões de Gênero, com duas sessões/mês, um no início e outro no final de cada mês. Pensamos em nossos/as alunos/as de graduação dos diversos cursos da UFPA, mas, como sempre fizemos,  serão abertos à sociedade e aos que se interessarem por esses estudos e debates. São ações que pretendem se tornar permanente área de discussão, mostrando que a UFPA está promovendo significtivas ações para debater a diversidade social e promover a equidade e as inclusões sociais, entrando nas políticas que condemam as práticas discriminatórias e preconceituosas.

Maria Luzia Miranda Álvares é Doutora em Ciência Política; Coordenadora do GEPEM/UFPA;  Coordenadora Regional do OBSERVE; Jornalista de “O Liberal”/PA. É uma das pioneiras dos estudos de mulher e gênero, no Pará, desenvolvendo trabalhos sobre a temática feminismo, mulher e gênero, com incursões sobre o entrelaçamento das representações socioculturais nas estruturas de poder.