N. 19 – Belém/PA - Novembro/Dezembro - 2014

Cinderela ainda Vende Ilusões

Antropóloga constata que filme de Disney continua estimulando nas garotas desejos de “ser princesa” e atitudes de passividade e espera. Estudo propõe estimular outros referenciais


Por Gabriela Leite

“Olha tia, eu rodo que nem a Princesa” foi o que disse uma criança à pesquisadora Michele Escoura, durante seu estudo sobre a influência das personagens da Disney na formação do conceito de feminilidade. Girando entre Princesas: performances e contornos do gênero foi  um estudo de mestrado no Departamento de Antropologia da FFLCH, USP, descrito na Agência USP  de Notícias. A ideia para a pesquisa surgiu a partir da percepção de como a personagem Cinderela continua a ter grande apelo sobre meninas ainda pequenas, mais de 60 anos após o lançamento de seu filme. Michele foi a campo e falou com crianças de três escolas — duas públicas e uma particular — para compreender de que forma as Princesas da Disney formam a concepção de homem e mulher no imaginário infantil.

Seguindo teorias de gênero, a pesquisadora conversou com crianças, exibiu filmes com elas e analisou  seus desenhos, produtos e brincadeiras. Percebeu que existe muito claramente uma diferenciação — e até uma cobrança — entre o que é ser homem e mulher. E a influência dos objetos com a marca das personagens da Disney tem grande importância para a afirmação da personalidade das meninas. Para as crianças também parece ser claro o que define ser princesa: ser elegante, ter um marido, roupas bonitas, uma corôa e glamour, o que mostra como as produções também exercem uma influência estética muito forte.

Também nota-se uma diferença de compreensão da linguagem cinematográfica, quando se comparam as crianças com maior e menor poder aquisitivo. As primeiras, por terem mais contato com o cinema, conseguem acompanhar melhor o roteiro do filme. Já nas escolas públicas, nota-se uma discriminação mais intensa contra quem não tem objetos das Princesas — isso as deslegitimaria como uma. Michele acredita que é necessário que haja outros referenciais a serem apresentados às crianças para que sua noção de feminino e masculino se expanda e não se baseie apenas em filmes e produtos.

Fonte: Blog da Redação: Ponto de Cultura- Textos da Escola Livre de Comunicação Compartilhada. Artigo publicado originariamente em Outras Palavras -Boletim de Atualização - Nº 257 - 20/2/2013.