N. 19 – Belém/PA - Novembro/Dezembro - 2014

Histórias mal contadas sobre o Trabalho das Mulheres

Quando se examinam as estatísticas, as ideias preconcebidas sobre o trabalho das mulheres se desfazem. Ao olharmos para a cartografia das profissões segundo o sexo, constatamos a manutenção dos fiéis bastiões masculinos e femininos.


Por Margaret Maruani, Monique  Meron

Taxa de desemprego, índice de preços: o número é político. O mesmo vale para o trabalho das mulheres. Cada sociedade, cada época, cada cultura produz suas formas de trabalho feminino e secreta suas imagens e representações. E os números participam muito ativamente dessa construção social. É, então, necessário recontar o trabalho das mulheres no século XX e, ao mesmo tempo, decifrar a maneira de contar. Sem olhar o mundo de ontem com os olhos de hoje, encontrar os dados e as lógicas que presidiam às definições de cada período permite compreender os contos e os códigos sociais que delimitam as fronteiras daquilo que chamamos de “o trabalho das mulheres”.

Os recenseamentos de antes repetem, como uma frase recorrente, que a classificação das mulheres é frequentemente um caso de interpretação”. Onde estão as fronteiras entre o emprego reconhecido e o trabalho informal? Como as mulheres foram, ao longo dos anos, recenseadas, omitidas ou recalculadas, apagadas ou reconhecidas? Sobre elas pesa sempre a suspeita implícita da inatividade: uma camponesa no campo trabalha ou contempla a paisagem? Uma operária que foi demitida é uma desempregada ou uma mulher que “volta ao lar”? Essas questões, recorrentes e perturbadoras, reservadas às mulheres, revelam o contraste entre a evidência do trabalho masculino e a contingência do trabalho feminino.

Declarar ou não uma atividade remunerada ou uma profissão, distinguir o fato de ocupar um emprego das funções domésticas ou estritamente familiares é se afirmar como membro de uma sociedade econômica. A delimitação do trabalho é uma linha vermelha para entender o lugar das mulheres nas sociedades contemporâneas, pois, a despeito do que possa ter sido dito sobre o declínio do “valor-trabalho”, a atividade profissional continua sendo uma experiência social importante.

Segundo a história do trabalho no século XX habitualmente contada, a atividade profissional das mulheres teria tido tendência a diminuir de 1901 a 1962; é uma “ilusão de ótica estatística”, pois os números foram recalculados em função de uma mudança de definição da atividade agrícola. No início do século, todas as adultas que vivessem com um agricultor e não tivessem outra ocupação declarada eram consideradas agricultoras. Tratava-se essencialmente das esposas. Em 1954, os especialistas decidiram contar apenas as pessoas que declarassem exercer essa profissão. Assim, as esposas dos agricultores que não se dissessem agricultoras eram consideradas inativas, sendo, até então, pressuposta a hipótese inversa. No momento em que o declínio desse setor se iniciou – e a ideologia da dona de casa floresceu –, essa mudança de definição subtraiu bruscamente 1,2 milhão de pessoas (das quais cerca de 1 milhão de mulheres) da população ativa. Não é surpreendente que a atividade das mulheres então pareceu declinar.

Assim, o aumento constatado desde os anos 1960 partiu de um ponto artificialmente baixo. Esse famoso crescimento da atividade feminina, que continuou, parece reforçado. Ainda mais porque, desde o início do século XXI, as estatísticas focalizaram o “emprego a qualquer custo”: uma hora de trabalho remunerado na semana basta para contar o estudante, o desempregado ou o aposentado entre as pessoas que possuem um emprego. Essas definições clássicas são agora aplicadas de maneira mais draconiana. Depois do desaparecimento do trabalho infantil e do recuo do dos jovens, cada vez mais escolarizados, depois da generalização dos direitos à aposentadoria, eis que a tendência secular do recuo da atividade dos mais jovens e dos mais velhos foi recentemente invertida. Além de uma parada no prolongamento dos estudos e das reformas que visam elevar a idade da aposentadoria, essas mudanças são acentuadas pela nova atenção dada ao aumento das taxas de emprego, preconizado pela União Europeia.

As mães não interrompem mais sua carreira.

A outra particularidade da atividade das mulheres seria que elas param de trabalhar algum tempo depois do nascimento dos filhos. Essa descontinuidade da trajetória profissional começou a retroceder desde o fim dos anos 1960 para se tornar residual. As taxas de atividade das mulheres com idade de ter e criar filhos (25-49 anos) passaram de 42% em 1962 para 85% em 2010.1 E esse é o primeiro fato marcante que se desenha ao longo das curvas que definem este século: a tendência geral à homogeneização dos comportamentos de atividade masculinos e femininos. Mesmo que um pouco mais fraco entre os menos diplomados, esse equilíbrio é espetacular em todas as categorias e continua acontecendo hoje.

Mas no passado as mulheres, em sua maioria, sempre pararam de trabalhar na idade da maternidade? Na realidade, os anos 1946-1968 constituíram um parêntese durante o qual elas conheceram trajetórias bem mais descontínuas, muito mais do que no início do século XX. Entre 35 e 39 anos,2 por exemplo, 53% das mulheres eram ativas em 1906 e 1911; 49% nos anos 1930 e em 1946; mas apenas 39% em 1954 e 1962. Foi preciso esperar 1975 para que essa taxa ultrapassasse novamente os 50% e crescesse até atingir os 87% no século XXI. Esse aspecto da história das mulheres é bem pouco conhecido, e ainda falta um detalhe: segundo as épocas, a atividade feminina nem sempre é dependente da vida familiar.

Por outro lado, desemprego, subemprego e trabalho por meio período existiram ao longo de todo o século XX, mas com denominações e definições muito diversas. É difícil esboçar o quadro exaustivo ao longo do tempo, pois seus dados são incertos, polêmicos e políticos. No início do século passado, apenas os operários e os trabalhadores “momentaneamente sem posição” eram contados como desempregados; esquecia-se dos jornalistas, dos autônomos pagos por serviço mas que não encontravam emprego etc. Hoje, para as mulheres, a sombra da inatividade continua pairando sobre a privação do emprego. Elas estão disponíveis imediatamente para agarrar qualquer oferta que se apresente? Elas se declaram desempregadas apenas porque não está mais na moda ser dona de casa?

Com relação ao subemprego, que só aparece nas estatísticas a partir dos anos 1990, e ao trabalho por meio período, as coisas são simples. Desde que começaram a ser recenseados, vemos que se trata, essencialmente, de coisa de mulher: 30% entre elas e 7% dos homens que tinham um emprego em 2010 trabalhavam meio período, e estas proporções pouco se modificaram em quinze anos (+ 2% para os homens e + 1% para as mulheres).

Essa forma de emprego, desenvolvida e estimulada pelas políticas e pela legislação estabelecidas nos anos 1980, vem se contrapor à tendência à homogeneização dos comportamentos de atividade masculinos e femininos: mais de 80% das pessoas que trabalham meio período são mulheres. O meio período foi criado inteiramente para elas – feito “sob medida”, de alguma forma. Mas daí a contar que ele serve bem ao “segundo sexo” é outra história; seria entrar no registro da mentira social e esquecer que ele é o motor do subemprego.

Das profissões de antigamente às de hoje em dia, a história também é sexuada. Assim, por exemplo, a classe operária sempre foi mais masculina; a terceirização dos empregos foi mais rápida e mais importante para as mulheres...

Quando olhamos para a cartografia das profissões segundo o sexo, constatamos a manutenção dos fiéis bastiões masculinos e femininos: muito poucas mulheres nos canteiros de obras, quase nenhum homem nos berçários, nem como empregados domésticos para ajudar pessoas ou fazer a limpeza. E a constância é tanto masculina como feminina. Rupturas aparecem entre as categorias mais diplomadas, onde vemos profissões qualificadas antes ocupadas de maneira hegemônica pelos homens se tornarem mais femininas sem se desvalorizarem sistematicamente. Essa dualidade varia também segundo as qualificações e as idades: as profissões mais segregadas são frequentemente exercidas por pessoas mais velhas e pouco qualificadas, enquanto as profissões que se tornam femininas se dirigem, em média, a um público mais jovem e qualificado. Na questão da variedade, as dificuldades continuam onipresentes. Mas as mudanças que observamos nas novas gerações e nos assalariados(as) mais qualificados(as) nos fazem pensar que o jogo ainda não está ganho, talvez.

No início do século XX, a maioria das mulheres trabalhava em casa. Elas eram agricultoras, costureiras pagas por serviço, operárias em domicílio... No século XXI, a quase totalidade delas deixa o lar para ir trabalhar. As mulheres ganham a vida, qualquer que seja sua situação familiar. Com a difusão do trabalho registrado, seu labor se tornou agora visível e autônomo, desconectado de seu status familiar. E isso muda muito: as mulheres ganharam em autonomia econômica – em liberdade, portanto.

De fato, e ao contrário das ideias correntes, elas nunca foram uma “minoria”, e sua força de trabalho sempre foi maciça: nunca menos que um terço da população ativa, quase a metade atualmente³. Essa viagem pelos meandros das estatísticas coloca em evidência o fato de que, a despeito das crises e recessões, para além dos períodos de guerra e pós-guerra, as mulheres realmente trabalharam muito na França, em todas as épocas desses séculos.

Notas:

1 - A taxa de atividade dos homens com a mesma idade gira sempre  em torno de 95%.
2 - dados disponíveis durante um longo período.
3 - 6,8 milhões de mulheres ativas em 1901; 13,9 milhões em 2008. Sobre os homens, passamos de 12,9 milhões em
1901 para 15,3 em 2008.

Monique Meron é estatística do Instituto Nacional de Estatística e Estudos Econômicos (Insee) e do Laboratório de Sociologia Quantitativa.

Ilustração: Patrícia Carmo

Fonte: texto e imagem reproduzidos da edição eletrônica de Le Monde Diplomatique Brasil, 27 de janeiro de 2013 (http://diplomatique.org.br/artigo.php?id=1332).

Colaboração:
João Batista do Nascimento, professor e pesquisador (Universidade Federal do Pará/UFPA).