N. 19 – Belém/PA - Novembro/Dezembro - 2014

Entrevista: Alda Britto da Motta

Reprodução de Entrevista publicada na Revista Gênero na Amazônia (www.generonaamazonia.ufpa.br), n. 2, jul./dez., 2012.

RE- Inicio de suas atividades na UFBA?

ABM-1971. Após concurso para professor Auxiliar de Ensino (jargão da época) no Departamento de Sociologia.

RE- Na área do ensino de Sociologia, quando e como você iniciou  a desenvolver as teorias de gênero ?

ABM-Não existia a discussão de gênero na época, muito menos teorias a respeito. Entretanto, desde o início das minhas atividades docentes sempre inseri nas discussões em sala de aula, inclusive com seminários, as temáticas, que toda a vida considerei fundamentais: relações entre os sexos e relações entre as gerações. Ao longo da década de 70, enquanto ia emergindo teoricamente a categoria gênero, comecei a utilizá-la. Com muito cuidado nas discussões, para não incorrer na falha (comum na época) de usar gênero como sinônimo ou em lugar de mulher; ou, talvez pior, despolitizá-la, usando-a com simplismo, como se não subentendesse relações de poder. Na pesquisa, trabalhava com emprego doméstico (tema da dissertação de Mestrado, em 1977) como uma questão de gênero. Fiz, inclusive, dois artigos sobre homens no emprego doméstico.

RE- E sua inserção no NEIM/UFBA?

ABM-A rigor, não me inseri no NEIM; o NEIM “se inseriu em mim”. E em Ana Alice Costa e Cecilia Sardenberg. Nós o fundamos, em maio de 1983. E aqui estamos com ele. Coincidentemente, foi o mesmo ano em que, na pós-graduação, dei meu primeiro curso sobre gênero. Intencionalmente afirmativo da categoria mulher: Mulher e Teoria Social. Tentando ainda “desinvisibilizar” a mulher na discussão teórica das ciências sociais, percorrendo os clássicos, Engels, Marx, Dürkheim, Levy-Strauss, etc, etc, passando por Simone como “a linha do Equador” entre a teoria oficial e o feminismo, e desaguando, ao final, nas feministas da “segunda onda”, de Betty Friedan a Shulamith Firestone. Dois semestres depois, por solicitação das alunas que haviam feito o curso anterior, dei a continuação dele, já enfatizando as relações de gênero e chegando à plena atualidade discursiva daqueles  anos 80. Já aí abordando não apenas autores, ou melhor, autoras, mas também campos temáticos onde a discussão então se desenvolvia: mulher e trabalho, sobretudo (a força afirmativa, teórica e política, da época), mas também família e mulher e política.

RE-Quais as principais linhas do estudo de gênero que você tem desenvolvido até hoje?

ABM- Na década de 90, fazendo o doutorado, (mas ou menos tardiamente, exatamente devido à minha condição de mulher-separada-criando três filhos sozinha-sem poder viajar para fazer cursos), foi a vez de fixar-me naquela outra dimensão do meu interesse, (referido na questão 2), relações entre gerações. Fixando num sentido afirmativo, ao mesmo tempo teórico e existencial, consciente de que a dinâmica social se realiza sobremodo pelas relações (e ações!) entre as gerações. Mas em atenta conexão, sempre, com a condição de gênero e a situação de classe dos indivíduos e grupos geracionais. Minha tese espelhou isso: mulheres e homens idosos reunidos nos chamados “grupos de convivência” e “programas para a terceira idade”, em que avultava a condição de gênero; grupos, ao mesmo tempo, de diferentes classes sociais. Idosos, principalmente idosas, “saindo da casca” da aposentadoria ou da domesticidade e ampliando sua sociabilidade e iniciando, gradativamente, um processo de consciência de geração.

RE- Principais correntes que você tem estudado nessa teoria?

ABM- Nessa intenção de abordagem e estudo dessas categorias, que chamo às vezes de militância teórica, venho refletindo mais e mais sobre a articulação ou intersecção das categorias gênero e geração, em ambos os casos com uma abordagem perspectivista.

RE- Você considera importante esse conceito nos estudos atuais sobre diversidade social e a conexão com as demais áreas das ciências de um modo geral?

ABM- O conceito de gênero é fundamental em qualquer análise da vida social que se faça. Como expressaram muito bem Malu Heilborn e Bruna Franchetto em um dos seus primeiros trabalhos, é “um ângulo de leitura do mundo”. Todo mito fundador é ao mesmo tempo uma história de relações de gênero. Até alcançarmos a plena percepção de que essas relações complementares são ao mesmo tempo desiguais, constituindo formas de exercício de poder e dominação, rolou a história da humanidade. E nesta luta continuamos. Mas acho que é o caso da geração, também. Essa discussão rasa de que relações entre as gerações não se inserem entre as três já consolidadas como representativas de antagonismo e dominação – gênero, raça e classe social – porque seriam apenas “hierárquicas”, não resiste a uma séria observação e estudo da realidade social. Não há identidade humana que deixe de abranger essas duas dimensões formativas de base, que são também historicamente constituídas.

RE- Quais os principais autores que você utiliza nesses estudos?

ABM- Difícil citar autores que tenham um trabalho constituído sistematicamente nessa dimensão de análise articulada. Poderia começar mencionando os insights de Georges Balandier em seu Antropológicas, que assinala, talvez pela primeira vez, o quanto as dimensões de gênero (ainda citado como sexo) e idade/gerações são elementos fundantes da vida social; passar por Godelier, que tem ótima e vanguardista visão sobre as mulheres nas sociedades primitivas, (nunca imaginei por que isto não ficou mais registrado nos relatos da antropologia feminista), onde posição de grupos de idade e condição sexuada são a base de toda a organização social; até alcançar autores mais recentes, como Attias-Donfut, em sua já extensa produção sobre as relações entre gerações. Jamais esqueceria Mannheim, a base de tudo em torno de gerações, que vive um tempo em que ainda não se registra o gênero, nem como existência nem como categoria de análise, mas que nos deixa uma base teórica onde podemos trabalhá-lo na atualidade. Em resumo, ainda são necessárias uma busca e construção grandes para alcançar um certo modelo de análise nessa intersecção de categorias. É algo ainda se fazendo.

RE-Considerando sua contribuição na pesquisa brasileira sobre gênero e geração quais os seus trabalhos que você considera importantes para as discussões sobre a diversidade social?

ABM- Tenho um velho artigo de 1986, A Relação Impossível, sobre relações de gênero e classe entre patrões e empregadas no trabalho doméstico, que descobri recentemente que continua sendo lido e discutido em aulas pelos colegas. Poderia assinalá-lo como um dos meus primeiros “insights” analíticos sobre a diversidade social e suas ambiguidades. Ele está publicado no volume de textos do evento Relações de Trabalho e Relações de Poder, que iria se transformando no CISO, naquele ano realizado no Ceará. Há outro artigo, As dimensões de gênero e classe social na análise do envelhecimento -- também utilizado por alguns colegas em seus cursos, e que também utilizo, em algumas disciplinas, para demonstrar meu modo de pensar/analisar as relações sociais em sua diversidade e intersecções-- que está publicado nos Cadernos Pagu n. 13, 1999.  Poderia citar, ainda, o mais recente Revisitando o Par Relutante, em que critico a persistente dificuldade de cientistas sociais, inclusive feministas, em trabalhar juntas as categorias gênero e geração, principalmente na referência ao envelhecimento. Ele se encontra no livro Travessias de Gênero na Perspectiva Feminista, um dos volumes da Coleção Bahianas, do NEIM, 2010. E para não me alongar demais, registraria o artigo A atualidade do conceito de gerações na pesquisa sobre o envelhecimento, que escrevi para o dossiê A atualidade do conceito de gerações na Sociologia, que organizei, com Wivian Weller, para a revista Sociedade e Estado, da UNB, v.25,  2010.

RE- No seu ponto de vista, há avanços da mudança de olhar os/as idosos/as brasileiros/as?

ABM- Há avanços relativos. Há uma mistura indigesta de alguma atenuação do preconceito contra os velhos, com a persistência da desinformação sobre eles. Essa desinformação, que considero abismal, aliada ao medo da morte que o velho prenuncia, resulta em um mundo de atitudes inadequadas que os mais jovens têm em relação aos mais idosos, que leva, inclusive, a grandes lapsos científicos e inadequadas políticas públicas, de que bastaria dar um exemplo: que se sabe, se trabalha e se age em relação à violência contra os idosos, que é mais uma questão das relações entre as gerações que da propalada violência de gênero?

RE-  Que outras questões  gostaria de citar?

ABM- Teria mais o que dizer, porém me faltou tempo. Não referi, na minha caminhada, outra “linha do Equador” mais recente, que foi Joan Scott, que fincou as relações de gênero como relações de poder no mapa teórico do feminismo; nem o tempo de “trabalho heróico” que tivemos no NEIM, em que cada uma de nós, Cecília, Alice e eu ministrávamos, cada uma em seu Departamento, disciplinas monográficas na Graduação dos então estudos sobre a mulher...

Alda Britto da Motta é Socióloga; Mestra em Ciências Sociais; Doutora em Educação; Professora dos Programas de Pós-graduação em Ciências Sociais e em Estudos Interdisciplinares sobre a Mulher, Gênero e Feminismo (PROGNEIM); Pesquisadora do CNPq e do NEIM/UFBA. Tem estudos e publicações sobre relações de gênero, relações entre as gerações e a questão do envelhecimento.
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