N. 19 – Belém/PA - Novembro/Dezembro - 2014

Eneida entrevista Ferreira de Castro *

Ao final de 1950, Eneida,** morando na França em razão de exílio espontâneo, tornou-se correspondente do Diário Carioca, à época dirigido por Otávio Tirso e Prudente de Moraes Neto, passando a publicar, na edição dominical do suplemento literário desse jornal, entrevistas, reportagens e crônicas sobre o cotidiano de Paris.

Nesse percurso jornalístico, Eneida “encontrou” Ferreira de Castro, conforme relata: “li, casualmente num jornal, que o grande romancista português da Amazônia*** havia autografado, na véspera numa livraria, seu novo livro e que ficaria ainda uma semana em Paris. Imaginei logo o prazer de toda gente e principalmente daquela querida Belém do Pará, onde passei um mês antes de embarcar para Paris, ao saber que uma filha da terra conversara, vira, falara com o romancista. Mas onde encontrar Ferreira de Castro? Corro daqui e dali, até que afinal um amigo comum marca-nos um encontro. Não pude comparecer, mas ganhara seu telefone. Começa a nossa amizade. Hoje, amanhã, hoje, amanhã: o homem de A Selva sempre cheio de outros encontros, outros compromissos e eu esperando, pacientemente, até que aconteceu e foi num sábado de uma tarde bonita, se bem que os relógios marcassem 21 horas. Um grande sábado para esta escrevinhadora. Ferreira de Castro estava a minha espera nos Campos Elísios, num Boulevard bem diferente de St. Michel, propriedade de estudantes e pequenos burgueses empobrecidos. E lá encontro Ferreira de Castro num café, Avenue Montaigne, junto ao hotel em que estava hospedado e acompanhado de Louise Delapierre,uma tradutora para o francês. Não nos conhecíamos, se bem que fosse de uma semana já nossa camaradagem pelo telefone, mas caímos nos braços um do outro, num daqueles abraços de velhos amigos.”

Começa assim, diante de uma xícara de café, a noite Ferreira de Castro:

Você é bem do Amazonas.

Ele vai falando de sua vida, de seu passado, do amor enorme pelo Amazonas, por Belém do Pará, pela gente do Brasil. Paris deixou de existir. Em pleno Campos Elíseos corre o Amazonas: desde a tartaruga que Ferreira de Castro sabe como e de quantas maneiras se prepara para comer, até o açaí, as cidades, os rios afluentes, o Paraíso -- seringal onde nasceu A selva e onde o romancista viveu.

Fico a examinar o romancista: É fisicamente um caboclo Amazônico, baixo, atarracado, riso largo de dentes brancos, pele cor de chumbo, maçãs de rosto salientes, cabelos lisos e ralos.

Você sabe que parece com caboclo?

Em Portugal dizem também isso. E já falei a doce língua de vocês.

Você quer ir às Tulherias ver a kermesse das estrelas?

Vou a qualquer lugar, contanto que você me renda uma entrevista. Quero contar histórias suaspara o  Brasil.

Quando entramos, depois de meia hora de espera, Ferreira de Castro segredou- me:

Não lhe parece a festa de Nazaré de Belém?

Andamos e andamos. Chegamos a encontrar o Rubem Braga que “queria se chatear para poder dormir” e no meio de “estrelas” e “astros” que vendiam sabonetes, sorvetes, perfumes, licores etc. Ferreira de Castro começa a perguntar e a falar na literatura brasileira.

Um grande, um especial carinho por Jorge Amado com quem mantinha assídua correspondência e que prefaciara a edição tchecoslovaca de seu último livro. Ferreira de Castro fala de todos: Graciliano, Zé Lins [todos] não esquece um só nome de romancista, de poeta, de cronista, de historiadores. E pede:

Não conte que falei deles individualmente. Posso ter esquecido algum e não quero ser injusto. Eles sãotão bons.

Não, você não esqueceu ninguém chega mesmo a citar Bilac.

Você leu Vidas Secas, do Graciliano Ramos? – insisto.

Perdemo-nos novamente na literatura brasileira.

Recebe muitos livros do Brasil?

Recebo bastantes e leio-os todos.

E a literatura portuguesa?

Portugal tem agora um grupo de jovens romancistas que creio, e mesmo tenho certeza, serão muitograndes. Espero muito deles. Diga para o Brasil que a literatura portuguesa atravessa uma fase deflorescimento.

E subitamente, quase cortando a frase, pergunto:

Você conhece o Waldemar Henrique?

Sim, conheço, e há muito tempo, o Waldemar.  Esse rapaz andou por Portugal e homenageou-me emCintra com uma noite - que noite maravilhosa! – de suas composições (Cita trechos de TambáTajá e fala, fala longamente de nossa música).”

A conversa da repórter Eneida com o romancista português caminhou dentro da madrugada. Os ambientes se sucederam, e sempre falando da Amazônia... Agora era preciso partir.

“Quer fazer o favor de fechar esse seu livro de notas”?

Obedeço e ouço isto:

É que quero dizer-lhe que é bem provável que eu vá ao Brasil em 1951. O grande poeta Oliveira e Silva, meu amigo, escreveu-me a respeito. Mas o melhor talvez seja não contar, pois não sei se irei mesmo.

– E não se esqueça de rever o Amazonas.

Esse é um dos maiores desejos de minha vida...Espero poder realizá-lo, antes de morrer”.

Era noite alta. A jornalista Eneida guardoua caneta, o livrinho... e partiu.

*- Entrevista também publicada na Folha do Norte, Belém, 26 nov. 1950. Arte Suplemento Literatura, p. 1-2. Para esta edição do Iaras, foram selecionados excertos desse documento. O texto integral foi localizado pela Doutora Maria de Fátima Nascimento e gentilmente doado ao acervo literário do GEPEM, situado na Casa da Escritora Paraense (CASAEPA), onde pode ser consultado.

**- Sobre detalhamento de vida e obra de Eneida de Moraes (1903-1971), patrona do GEPEM, jornalista e escritora paraense, consulte-se a biografia intelectual Eneida: memória e militância política (Eunice Santos. - Ed. GEPEM).

***-José Maria Ferreira de Castro nasceu em 8 de maio de 1893 em Osseia, aldeia de Portugal.  Aos dez anos,apaixonou-se por Margarida, uma jovem de 18 anos. Em consequência dessa paixão, escreveu suas primeirascartas românticas e veio para o Brasil para que a amada o considerasse um homem valente.