N. 19 – Belém/PA - Novembro/Dezembro - 2014

O que Há de Errado com o Feminismo?

Ana Patrícia Ferreira Rameiro

 

Há algum tempo refletindo sobre minhas vivências e os processos de identificação e construção do meu “estar-no-mundo” que fazem com que eu me autoclassifique mais feminista do que feminina, tenho percebido, nos mais diversos espaços de sociabilidade, reações de negação, crítica e até mesmo repulsa a qualquer discurso ou prática que se vincule ao feminismo. E o mais interessante é que este tipo de reação não é atitude exclusiva de pessoas cujos pensamentos são associados ao “senso comum”, aqueles que desvinculam a compreensão do mundo de processos históricos e de categorias científicas.

Esta “aversão ao feminismo” espraia-se pelos mais diferenciados espaços e se reproduz entre alguns grupos de acadêmicos, artistas, donas de casa, servidores públicos, executivas, boêmios, políticos, entre muitos outros.

Diante disto, talvez eu possa afirmar que atitude feminista não se encerra em atos públicos, campanhas, pesquisas, construções de políticas públicas e eventos temáticos, mas impõe-se como um estilo de vida que inclui microembates cotidianos contra as bases e discursos de uma sociedade profundamente construída e emoldurada por pensamentos e práticas históricas permeadas por sexismo, machismo e dominação masculina. Significa, portanto, refletir e descortinar as ideologias reprodutoras de desigualdades e assimetrias de gênero presentes em anedotas, relacionamentos, análises da realidade e críticas individuais. E ao questionamento feminista elaborado e exposto é comum que se direcionem críticas exacerbadas, incomodadas, quase intolerantes.

A negação veemente, declarada ou não, ao feminismo, se estende ao conceito de mulheres feministas, que nas representações coletivas aparece como uma mulher necessariamente radical, agressiva, masculinizada, com patologias afetivas, ou pior, afetada pela ausência de contato físico com o “sexo oposto”. Obviamente trato aqui de um olhar específico, referente à minha vida e aos espaços pelos quais transito e dialogo, sem ousar situar este fenômeno como algo generalizado ou característico de todas as partes do mundo. No entanto, a minha condição de mulher imersa em contextos de pesquisa e militância de gênero, me posiciona em lugar de fomentadora – mesmo inadvertidamente – da elaboração de discursos de pessoas com quem convivo ou encontro com frequência acerca do feminismo, do gênero e de nossas lutas históricas.

Assertivas como “não devo nada ao feminismo”; “isso é radicalidade”; “as mulheres querem escravizar os homens”; “as mulheres querem ser iguais aos homens, logo pague a conta e carregue peso”; “ela é feminista, mas é legal”; e “não há mais necessidade deste tipo de luta” são mais recorrentes aos meus ouvidos do que eu pudera imaginar, e provêm dos mais diferentes lugares, muitas vezes de forma inusitada e descontextualizada. Em alguns momentos, a minha sensação é de que há um tipo de campanha em andamento, campanha sistemática de desqualificação deste tipo de ideia, o que é enfaticamente corroborado pela quantidade de comentários indignados e ofensivos que recheiam os sites e blogs que ousam levantar a bandeira da cybermilitância feminista.

Relendo Gohn (2002) e suas brilhantes teorizações sobre os movimentos sociais, me deparo com a ideia de que tem recrudescido nas últimas décadas – de reestruturação produtiva e neoliberalismo individualista – uma forte ideologia de criminalização dos movimentos sociais, especialmente (mas não de maneira exclusiva) entre as classes médias e altas, tendentes à preservação do status quo, da meritocracia, da tradição e de um padrão de família. Isto é patente nas retaliações veementes aos atos públicos, na associação do movimento dos sem-terra à formação de quadrilha e do movimento estudantil a vandalismo esvaziado, no levante contra as demandas do movimento negro (especialmente ações afirmativas), nas críticas comuns e reiteradas às greves de professores e servidores do Estado, e na desconsideração reservada aos discursos e práticas feministas, principalmente em contexto de militância política.

Quanto a isto, penso ainda em Elias (2000) que afirma que os grupos outsiders têm as suas características negativas amplamente generalizadas, sendo, portanto, profundamente marcados por estereótipos depreciativos em nome de atitudes extremas de dois ou três de seus membros. É neste sentido que algumas feministas com discursos incoerentes e extremos ocupam espaço ilustrativo privilegiado na elaboração de argumentações “antifeminismo”.

Mas o imaginário comum acerca dos movimentos sociais e a condição de outsider de seus membros ainda não seriam suficientes para situar e compreender as máculas e negativas presentes nas representações sociais acerca do feminismo, ainda mais porque muitos outros movimentos sociais ou levantes pontuais encontram amplo apoio popular, como as marchas contra a corrupção, contra a violência ou os atos de alguns movimentos cristãos contemporâneos.

Recorro a Rago (2002) que classifica como “construções misóginas amplamente aceitas” as concepções negativas voltadas especificamente para as mulheres que ousam se declararem feministas e a partir disso direcionar suas vidas e escolhas. Para a historiadora, há um forte processo de “eliminação da historicidade dos fenômenos e naturalização” dos acontecimentos. Neste sentido, esvaziar o sentido histórico das lutas e conquistas feministas, desvinculando as transformações do jogo político significa naturalizar os processos sociais, crer em “magias superiores e inexplicáveis” que orientam os acontecimentos socioculturais. Rago (2002) classifica como misógino um imaginário que deprecia as mulheres que lutam, e afirma que esta relação de negação do feminino e do feminismo, criador de estereótipos, não é recente; é parte de um movimento de desqualificação das amplas e graduais conquistas políticas das mulheres, depreciando também as microintervenções, as pequenas lutas cotidianas.

Retomando a pergunta inicial, com minha pouca vivência, muita juventude e muita curiosidade, digo que feminismos são muitos, plurais, e expressam as suas demandas, possibilidades e limites de acordo com cada momento histórico. Penso agora em Marx, que em algum ponto de sua obra afirmara que se uma ideia circula pela sociedade é porque as suas bases materiais de existência já estão postas, pelo menos no campo das possibilidades de caminho histórico. Portanto, as ideias se expõem e se realizam na moldura de cada tempo. Feminismos também.

Nos nossos tempos, em que já se fala em “fluidez do conceito de gênero”, em dicotomia entre políticas de identidade e possibilidades pós-modernas, em desconstrução dos corpos, sexos e gêneros; os feminismos estão também imiscuídos em todas estas nuances. E hoje incluem pessoas e segmentos heterossexuais, homossexuais, cissexuais, transgêneros, transexuais, social-democratas, socialistas, liberais, religiosos, ateus... Fugindo das idealizações, observo ainda que feminismo também é tensão, ruptura, dissidência, tanto quanto qualquer outro movimento social, com seus direcionamentos contraditórios próprios.

O que é preciso que se compreenda é que não há delimitação descritiva cabível e suficiente para todas estas pessoas, cujas únicas características em comum são o reconhecimento das diferenças sexuais como geradoras de assimetrias e desigualdades sociais, a disposição para lutas e transformações em diversos níveis e a sensibilidade para a constatação de que processos históricos atribuíram poder a classes e grupos, e dentre estes, inexoravelmente, lá está ele: “o poder do macho”, a profunda desigualdade de gênero instalada e sustentada por mentalidades e práticas hodiernas, apesar dos avanços.

Por fim, antes que termine a quantidade de letras permitidas neste desabafo penso ser ainda importante ressaltar que em mais de dez anos de aproximação e parcerias com muitas mulheres feministas militantes, jamais uma radical estereotipada cruzou meu caminho. Não são mulheres comuns, é fato, feministas são mulheres além, contudo constroem suas existências a partir de muitos outros parâmetros, todos situados a anos-luz de distância da forma que lhes é socialmente atribuída. São mulheres que lutam para vivenciar e ensinar liberdades, que desejam que as mulheres ocupem todos os lugares ocupáveis da sociedade, que combatem dicotomias, hierarquias, poderes, numa construção contínua e entusiasmada da “manhã desejada”.

Referências Consultadas

GOHN, Maria da G. Teorias dos movimentos sociais: Paradigmas clássicos e contemporâneos. São Paulo: Edições Loyola, 1997.

ELIAS, Norbert; SCOTSON John L. Os estabelecidos e os outsiders: sociologia das relações de poder a partir de uma pequena comunidade. Rio de janeiro: Zahar, 2000.

RAGO, M. Feminizar é preciso: Por uma cultura filógina. São Paulo em Perspectiva, 15(3)2001. Revista do SEADE, São Paulo, 2002.

Ana Patrícia Ferreira Rameiro  é Assistente Social do Tribunal de Justiça do Estado do Pará. Graduada em Serviço social pela Universidade Federal do Piauí (2007). E-mail: patrí Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.