N. 19 – Belém/PA - Novembro/Dezembro - 2014

Entrevista: Ricardo Pimentel de Méllo

Quando iniciou suas atividades na Universidade?

Quando entrei para o curso de Psicologia da UFPA em 1991, já encontrei o Departamento de Psicologia dividido em três: 1) Psicologia Experimental, 2) Psicologia Clinica e 3) Psicologia Social e Escolar. Era recém-chegado de um mestrado em Psicologia Social pela PUC-SP, onde pesquisei sobre conflitos agrários na região conhecida como “Bico de Papagaio” (sul do Pará, e norte do Tocantins). Fui integrado ao Dep. de Psicologia Social em função do concurso ser neste campo acadêmico. Conheci nos corredores (sempre cheios de conversas) o Prof. Raul Navegantes e topei montar com ele o Grupo de Estudos da Violência. Excelentes anos de convivência com profissionais e estudantes dedicados e competentes. Em 1994, fomos procurados por uma associação de mães existentes na cidade de Altamira-PA, para auxiliá-las na sua luta para que fossem investigados com seriedade, crimes praticados contra seus filhos  (tortura seguida de emasculação e morte). Fizemos um dossiê sobre o que se chamou de “Caso das Crianças Emasculadas em Altamira” em colaboração com o Movimento de Emaús (Cedeca/Emaús), coordenado pelo Pe. Bruno Sechi. Além do dossiê, fizemos um vídeo que percorreu muitos eventos que tinham como tema a criança e o adolescente, permitindo que o caso tivesse maior visibilidade.

Por conta desse último trabalho, retomei a pesquisa em um doutoramento, cuja tese foi publicada em livro pela própria UFPA (A Construção da Noção de Abuso Sexual Infantil). Ou seja, sempre me dediquei a estudar e pesquisar temas ligados à violência, culminando na criação de uma disciplina optativa chamada “Psicologia e Violência” que lecionei durante muitos anos.

Em 2007 ingressei no curso de Psicologia da Universidade Federal do Ceará, onde permaneço. Mas mantenho ligações acadêmicas com professores da UFPA, estabelecendo parcerias de estudos e pesquisas.

Resumindo, a academia foi e é um beco de encontros: a) no início da graduação com o behaviorismo; b) um pouco mais adiante com a psicanálise; c) depois, ainda na graduação, com os questionamentos importantes trazidos pela a arqueologia e genealogia de Foucault e pela indeterminação do tempo e do ser trazidos por Deleuze; d) já na pós-graduação (especialização, mestrado e doutorado), veio o desejo de fazer dialogar os itens “b” e “c’”, articulados na perspectiva do construcionismo social. E no pós-doutorado enveredei pesquisando sobre a Teoria Ator-Rede em suas repercussões na Psicologia brasileira. Foram e são possibilidades teórico-metodológicas conhecidas e ao mesmo tempo fugidias, que busco, atualmente, formar sons diversos efetivados em novas questões de pesquisa e estudos.

Na área do ensino de Psicologia, quando e como você iniciou a desenvolver as teorias de gênero?

Sinceramente não foi a Psicologia que me levou às discussões de gênero. Formei-me, em 1986, em um curso era fortemente vinculado ao que na época conhecíamos simplesmente por behaviorismo. Hoje denominaria isso de fundamentalismo empiricista. Muito em função de minha militância política no movimento estudantil e no chamado movimento democrático-popular, aproximei-me, autodidaticamente, da teoria marxista que me levou a esta militância politica e questionamento por conta dos “movimentos de mulheres” que floresciam em Belém. Ajudei a criar o “Movimento de Mulheres do Campo e da Cidade”-MMCC. Dentre tantas mulheres aguerridas lembro muito da Isa Cunha. Foi por conta dessa militância que decidi fazer uma monografia de conclusão de curso direcionada a questionar nossas fabricações sexistas. Tive a oportunidade transdisciplinar (ou seria indisciplinar?) de ser orientando da Profa. Jane Beltrão da Antropologia, pois não encontrei ressonância quanto ao tema no curso de Psicologia. Pesquisei as propagandas impressas de grandes magazines, em relação aos brinquedos dirigidos a meninos e meninas. Lembro especialmente do impresso da “finada” Mesbla (uma rede de lojas de departamentos). O foco era o questionamento sobre se considerar gênero como natural, permitiu objetar o binarismo do gênero (homem e mulher), questionar se existem características que podem ser atributos naturais de homens (como a virilidade) ou de mulheres (como a maternidade).

Depois disso ingressei em outros campos menos dirigidos a questão de gênero, como violência agrária e abuso infantil. E retomei a temática da violência com ênfase em gênero, pesquisando violência doméstica, Delegacia da Mulher, Lei Maria da Penha, até chegar aos estudos “queer”, onde o foco se amplia: questionar o próprio conceito de gênero e de corpo.

Quais as principais linhas desse estudo que você desenvolveu até hoje?

O cenário que vivo hoje mistura o desejo de compreender mecanismos humanos de produção de práticas e de narrativas que indicam, ao mesmo tempo, posturas que dão visibilidade a variedade de nossas experiências e outras se contrapõem querendo nos levar a ignorar a variedade de modos de viver, vorazmente buscando calar, mesmo que por alguns instantes, a diferença e a multiplicidade, buscando transformar os espaços de convivência em fixos momentos de institucionalização. É isso que vem me fascinando ler, colher, pesquisar, vivenciar. Este é o meu interesse atual, ou seja, para mim a questão proposta por Foucault, me serve como guia em meus estudos: “o que estamos fazendo de nossas vidas?”.

Interessante que cada um de nós se subjetiva sobre e no conceito de gênero dando-lhe vida. Inventamo-nos na medida em que colocamo-nos em funcionamento e a esse processo podemos nominar de subjetivação, ou a ação de subjetivar-se, de inventar-se, de fazer-se humano.

Ocorre que todas as nossas formas de viver (pessoais-culturais), se fazem em conexões com diversas materialidades que incluem o corpo, nos configurando em gênero (como expomos acima), mas não só: mantemos conexões com variados “objetos” que, ao mesmo tempo em que nos constroem, justificam domínios de saberes-fazeres que legitimam nossos modos de vida. Portanto, não é apenas a crença em determinados valores que determina nossa maneira de sermos humanos, mas uma típica relação com uma forma de verdade que se faz em um estilo de existência (uma estética), que inclui conexões com certas materialidades (“humanas e não-humanas”). É importante observar que vivemos em um momento histórico em que há maior fluidez de experimentações (como por exemplo, nas experimentações do cartunista Laerte em roupas/materialidades “femininas”), permitindo uma expansão das discussões e estudos sobre a formação da vida humana como múltiplas que se singulariza em conexão a certas materialidades.

Principais correntes que você tem estudado nessa teoria?

No momento, me dedico à pesquisa sobre “Modos Múltiplos de Subjetivação em Relacionalidades Actantes”. Na vida humana mobilizamos atores (“humanos” e “não humanos”) os mais variados que se enlaçam tornando-se híbridos. Meu último artigo publicado tematiza isso: somos híbridos. Sigo no rumo dos que desmobilizam dualidades instituídas pela modernidade: natureza/sociedade, sujeito/objeto, etc. Não chamaria de correntes no sentido “tradicional” do termo (teoria com metodologia particular). Mas, entendo a prática da pesquisa como “ciência em ação” (Latour), ao invés de atores contrapostos (sujeitos versus objetos). Tenho adotado além dos escritos do Foucault como referência, também os das articuladoras do movimento “queer” (não gosto de chamar de teoria): Judith Butler e Beatriz Preciado. Outra autora que me inspirou foi Donna Haraway com seu “manifesto Ciborgue”. Considero também autoras importantes do cenário brasileiro como a Berenice Bento, a Paula Machado e a Guacira Louro. Junte-se a isso amigos com quem compartilho pesquisas e textos: Benedito Medrado, Jorge Lyra, Jefferson Bernardes, Dolores Galindo, Maria Lúcia Chaves Lima, Luisa Escher, Juliana Sampaio, Juliana Alexandre e Alyne Alvarez.

Há também autores e autoras em um campo menos diretamente ligado a gênero, mas que tenho aproximação como aqueles da Teoria ator-rede (TAR): Bruno Latour, Michel Callon, John Law, Annemarie Moll. E ainda, quebrando o mito que fazemos pesquisas sós, tenho o privilégio de interlocutores como Vera Menegon e Mary Jane Spink.

Resumindo, estou efetivamente usando a noção de biopolítica de Foucault, questionamentos do movimento queer e a postura metodológica da TAR, para estudar/pesquisar dispositivos que transversalisam o corpo ao mesmo tempo em que lhes dão certo arranjo, para além de alguma disposição interna psicológica. Sigo em busca dos gerenciamentos que fazemos em nossos modos de viver. A novidade pra mim é que não é mais possível pensar isso hoje sem nos vermos como híbridos ou actantes: tudo que se faz em rede, sejam pessoas, artefatos, instituições (humanos e não humanos) são sempre considerados como híbridos na medida em que se agenciam mutuamente. Nós nos relacionamos sempre buscando cúmplices a certo rumo que damos às nossas vidas, sejam os amigos, sejam os livros, seja um batom, um perfume ou um tipo de roupa.

Você considera importante esse conceito nos estudos atuais sobre diversidade social e a conexão com as demais áreas das ciências de um modo geral?

Já usei o conceito de “diversidade”, mas o tenho evitado. Brevemente tento explicar. A meu ver esse conceito de “diversidade” é muito usado sob a forma de certo “perspectivismo” que advoga que algo pode se visto sob vários pontos de vista: diversidade=pluralidade. Portanto, conclui-se que há uma pluralidade de sentidos. A meu ver isso advém da chamada “virada linguística” que teve sua importância, mas parece já demonstrar certo esvaziamento na proposta de supervalorizar a linguagem. Ora, se a gente acha que um objeto tem várias maneiras de ser olhado, ele será sempre único, apenas com a variação dos pontos de vista: a realidade é única e varia só o ponto de vista. Daí pode existir dualismos como homem e mulher, gay e hétero, etc. Como se um “homem” fosse único, sem multiplicidades outras que pudessem o aproximar de um devir “mulher” (se isso ocorre, esse devir é atrelado a “ser gay”). O “gay” por sua vez, tem de ser parecido com “homem”, mas de tal modo que não seja “completamente homem”. E assim por diante. É como se as diferenças não se comunicassem, como se não se entrecruzassem e fossem visões puras.

Para essa crítica me inspiro em Annemarie Mol. Contrariamente a certo “perspectivismo”, podemos pensar as singularidades como multiplicidades: sempre abertas, sempre em devir e controversas. Assim podemos questionar se ainda devemos nos relacionar a partir de gêneros, ou se é preciso que alguém, para ser considerado humano, se dobre em um gênero. Desta feita, somos simultaneamente múltiplos.

Portanto, considero sim, fundamental, pesquisas e estudos sobre regimes de ser pessoa que colocam em ação, pessoas jurídicas, pessoas de gênero, pessoas de direitos, etc. E isso é impossível de ser realizado em um único campo de saber. Aliás, está mais do que na hora de piratearmos essas fronteiras, elas só tem sentido em um mundo feito de “reservas de mercado” que teima em nos apanhar em suas armadilhas sectárias.

Inventar (se) é angustiante? E quem disse que angústia significa petrificação, imobilidade.

Lembro de um trecho do nosso saudoso filósofo Benedito Nunes em “O mundo de Clarice Lipector”:

Quando nos sentimos existindo, em confronto solitário com a nossa própria existência, sem a familiaridade do cotidiano e a proteção das formas habituais da linguagem, quando percebemos ainda a irremediável contingência,ameaçada pelo Nada, dessa existência, é que estamos sob o domínio da angústia, sentimento específico e raro, que nos dá uma compreensão preliminar do Ser.

Compreensão sempre preliminar, que prepara, ao mesmo tempo em que cria. Isso é múltiplo.

Ricardo Pimentel Méllo é Doutor em Psicologia Social (Pontifícia Universidade Católica – PUC/SP).
Professor da Universidade Federal do Ceará (UFC), Fortaleza/ CE /Brasil.
Entrevista concedida à Luzia Miranda Álvares (Coordenação GEPEM)